sexta-feira, 20 de março de 2009

Recado

Precisa de uma longa explicação? Não compreende o que lhe digo? Tampouco compreenderá, ainda que lhe explique mil vezes com palavras. Só terá a verdadeira compreensão ao captar os sinais que passo com meu olhar.

Elegia - Augusto de Campos e Péricles Cavalcanti

Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
Eu sou um, quem sabe…
.
.

John Donne em “Elegia XIX: Indo para a Cama” (Tradução de Augusto de Campos)

Vem, oh senhora, vem, que ócios não me permito;
Fico agitado toda vez que não me agito.
Quando o inimigo ao inimigo espreita e escuta,
Mais se cansa da espera que da própria luta.
Tira este cinto, cintilante anel celeste,
Que em torno a um mundo mais formoso dispuseste.
Desprende logo o peitoral onde lusis,
Que barra os olhos dos xeretas imbecis.
Despe-te, pois o carrilhão sonoro chama,
Dizendo a mim que a hora chegou de ir para a cama.
Abre o teu espartilho, que eu invejo em tudo:
Contudo, ele te abraça; e se mantém, contudo.
Tua saia, ao cair, revela tal primor,
Que é igual à sombra a se afastar do campo em flor.
Fora a coroa entrelaçada de metal;
Solta os cabelos, diadema natural.
Tira os sapatos, e, sem medo, ora te avia
Ao sacrário do amor, à cama tão macia.
Com essas vestes cândidas, do céu amigo
Os anjos vinham. Anjo meu, trazes contigo
Um paraíso igual ao de Maomé; e embora
Haja espíritos maus também de branco, agora
Sabe-se bem qual anjo é mau, e o bom qual é:
Um deixa em pé os cabelos, o outro a carne em pé.

Concede uma licença à minha mão errante,
Para ir ao meio, encima, embaixo, atrás, adiante.
Oh, minha América! Oh, meu novo continente,
Meu reino, a salvo porque um homem tens à frente.
Tenho aqui minhas minas, meu império aqui;
Que abençoado sou por descobrir a ti!
Este acordo liberta a quem ele segura;
Onde coloco a mão, eu deixo a assinatura.

Nudez completa, da alegria o cerne e a polpa!
Como a alma sai do corpo, o corpo sai da roupa
Para o prazer total. A jóia da mulher
E maçã de Atalanta, que sua dona quer
Lançar aos tolos, a que, vendo a gema bela,
Pensem sequiosos no que é dela, e não mais nela.
Como pintura, ou capa de volume, feita
Visando aos leigos, a mulher também se enfeita;
Mas é obra mística, e seu tema se explicita
Somente àqueles a que a graça nobilita,
Como nós. Sendo assim, que eu te conheça inteira;
Sem pejo vem, e, como diante da parteira,
Mostra-te a mim. Atira longe a vestimenta:
Para a inocência punição não se apresenta.

Que esperas? Estou nu... e as horas se consomem.
Mais cobertura tu desejas do que um homem?


Este poema deu origem à letra da música Elegia,
gravada por Caetano Veloso e Simone.

Determinação

Errante homem
Não busques o acaso
Segue na reta

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sala de Anatomia

Esqueleto empertigado
Passeia na sala vazia,
Remexe os ossos sem graça,
Busca, talvez, companhia.

Quem sabe queira dançar,
Suavizar a coluna,
Soltar-se, ficar mais leve,
Fazer qualquer diabrura.

Mas, de repente, se acende
A luz do laboratório,
E ele corre com medo,
De volta pro purgatório.

Volta a ficar pendurado
Naquela pose idiota,
Esperando que lembrem dele
Somente nos dias de prova...

Sutras de Shiva

Quando estiveres vividamente atento através de um sentido qualquer, mantém-te alerta.
Quando sentado ou deitado, deixa-te ficar sem peso, além da mente.
Vê, como se fosse pela primeira vez, uma bela pessoa ou um objeto comum.
Na beira de um poço profundo, olhe atentamente para a profundeza, até o assombro.
Olhando para o céu azul atrás das nuvens, vê a eternidade.

Saigon - Cláudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão

Tantas palavras
Meias palavras
Nosso apartamento
Um pedaço de Saigon
Me disse adeus
No espelho com batom...

Vai minha estrela
Iluminando
Toda esta cidade
Como um céu
De luz neon...

Seu brilho silencia
Todo som
Às vezes
Você anda por aí
Brinca de se entregar
Sonha pra não dormir...

E quase sempre
Eu penso em te deixar
E é só você chegar
Pr'eu esquecer de mim...

Anoiteceu!
Olho pro céu
E vejo como é bom
Ver as estrelas
Na escuridão
Espero você voltar
Pra Saigon...
.
.
.

Descuido

Pousa mais uma rolinha no quintal,
Mal sabe o perigo que ronda:
Atrás de um lençol no varal,
O moleque espreita na sombra.

Sassarica a pobrezinha descuidada,
Beliscando coisinhas no chão, travessa,
Encontra logo a armadilha montada,
O menino puxa a corda e ela fica presa.

Qual será o destino da coitada?
Nas mãos do guri malvado?
Ficar cativa na gaiola enfeitada
Ou então virar um ensopado?
.

terça-feira, 17 de março de 2009

Ondas

Ondas, ondas,
Vagas longas
Vão e vêm no meu viver...

Sombra, rondas.
Sondas oblongas
Avançam e desafiam meu querer.

Apenas ondas,
Vagas lembranças
Aquilo que ficará de você...


Poesia inspirada na pintura
Ondas, Ondas e Cores.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A Senhora das Letras

Carpinteira das letrinhas,
Trabalhadora incansável,
Compondo muitas quadrinhas,
Que é vasto seu vocabulário.

Desde muito, muito cedo
Ela aprendeu a brincar
Com as contas da cadeira,
Logo já sabia contar.

E então, aos quatro anos,
Ninguém sabia porquê,
Começou a ler sozinha...
Ir à escola pra quê?

Quando soube o que que era,
Na área psi se formou,
Queria conversar com as pessoas
E veja o que arranjou:

Mergulhou nas suas dores,
Amenizou desencantos,
Colocou ordem no caos,
Fez crescer, cessando prantos.

Pela vida foi seguindo,
Leu demais e estudou
Tantas coisas que sabia,
Que já sabia e enjoou.

Hoje não trata de ninguém,
Ou melhor, faz muitos elos,
É que ajuda muita gente
Quando escreve no Duelos.