domingo, 30 de janeiro de 2011

Renascimento: Descoberta

Pedro e Maria, colegas de faculdade. Atração, desejo, descobertas, proximidade, rotina, compatibilidade. Fim de curso. Novos rumos. Saudade. Vontade de viverem juntos. Famílias próximas. Casamento. Felicidade. Primeiro filho. Primeiras dificuldades. Outro filho. Maior aproximação. Prosperidade. Afabilidade mútua. Sentimentos mornos. Mais outro filho. Retorno do carinho. Afastamento sexual. Mais trabalho. Envolvimento com filhos. Maria mais presa ao lar. Pedro mais maduro, assoberbado pelos compromissos na empresa. Rotina. Cansaço. Desinteresse mútuo. Afabilidade. Sentimentos frios. Carinho. Respeito. Ambos voltados para a criação dos filhos. A vida segue. Pedro e Maria quase nunca sós. Férias esparsas. Fins de semana cheios e voltados para a família. Não trocam mais olhares cúmplices. Não se amam mais. Pedro calado, afável, distante quase sempre. Maria ocupada, certa da felicidade familiar, segura na solidão a dois. Filhos criados. Um dia, um fato: Pedro está diferente. Quase não para em casa. Esconde, por trás do jeito sério, um sorriso quando volta. Maria repara nele e se pergunta o que há. O tempo passa. Pedro diferente, com ela ainda é o mesmo, exceto por um distanciamento corporal crescente. A dúvida: terá outra? Tudo então se acende em Maria, retornam os sentidos aguçados. Outra vez ele povoa seus pensamentos. Seus olhos buscam o de Pedro, que se esquiva. Fareja novidade, interroga-se sem resposta. Repara, procura, investiga. Maria passa a seguir Pedro. Às vezes recorda-se de que ele desejava conversar e ela adiava. Mas tudo voltou a se aquietar e a conversa ficou pra depois. O medo. De longe, Maria segue os passos de Pedro. Enfim, a descoberta: Pedro tem outro. O susto.
Atônita, arrasada, humilhada, se esquiva e volta para casa. Chora, revolta-se, reflete sobre os sinais que Pedro lhe dava e ela não enxergava. A constatação: traída pelo marido com outro homem. Seu mundo despenca, sua cabeça roda, seus olhos derramam lágrimas inesgotáveis. Dorme sozinha, curvada como um feto. Sonha e liberta-se. Acorda e o primeiro pensamento é: por que um homem? Reflete. Aceita? Passa o tempo. Pedro e Maria conversam. Ela fala, grita, interroga, desatina, chora, berra, sofre e cai até que a lucidez retorna. Sozinha, pensa nas poucas palavras de Pedro: estou seguindo meu coração e meu desejo. Esforça-se para compreender. Gosta dele, tem respeito por ele. Tenta absorver tudo aquilo. Corre o tempo. Maria entende que não é algo pessoal, é o destino dele. Aceita, finalmente, o fato: seu marido é homossexual. E ela? Por que se casou com um homossexual? Tenta entender. É um longo processo.
Separam-se sem litígio. Os filhos participam de tudo. Nada fica escondido. A verdade é íntegra. Há desequilíbrio. Há ajustes.
Agora, passados muitos meses, ainda se veem. Maria olha Pedro que agora é outro. Encanta-se, desconcerta-se. Ele é mais solto, criativo, mais pleno, mais vital. Apaixona-se. Não pelo ex-marido, mas por Pedro agora renascido, intenso, profundo, inteiro, revitalizado, feliz. Sabe que ele não é mais seu. Compreende tudo. Agradece a oportunidade que a vida lhe deu.
Parte em sua própria busca, plena de possibilidades.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A Tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro

O que dizer sobre o acontecido, quando as imagens falam por si mesmas? A única resposta é o silêncio. A dor e a noite silenciam as vozes que gostariam de gritar seu desespero diante de tão súbita e aterradora ocorrência.
Na verdade, foi um desastre anunciado há muito tempo, embora sua proporção tenha sido uma grande surpresa que ainda por cima ocorreu durante a madrugada.
Todos nós, moradores do Rio de Janeiro ou não, estamos muito abalados e o povo brasileiro tão solidário nessas catástrofes acorre imediatamente com ajuda e solidariedade.
Mas o tempo vai passar, as chuvas irão cessar, a terra vai secar, assim como o pranto, e tudo será reconstruído, não se sabe quando, até as vidas dos atingidos pela calamidade.
Tudo passará. Nada fica para sempre. Nem a felicidade nem a dor. Tudo é um ciclo que se repete e repete sempre. É a vida.
E algo tão grandioso, nos faz pensar que o momento presente precisa ser mais valorizado em toda a sua magnitude. Precisamos ficar mais atentos para o que fazemos a cada dia de nossas vidas, o quanto aproveitamos cada momento de paz, o quanto declaramos do amor que sentimos e o quanto ainda somos capazes de fazer sofrer por nossas bobagens, intransigências, orgulho e desrespeito cotidianos justamente àqueles que nos são mais próximos, para que não precisemos ser despertados em consciência por uma desgraça desta monta, capaz de nos fazer corrigir o passo na vida.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Vivendo a Diferença (Homossexualidade)

A exposição que os homossexuais tiveram a partir do aparecimento da AIDS acelerou o processo de reflexão da sociedade. Mas, trouxe com ele, relacionado ao medo, um incremento da homofobia.

Ora, se Deus é amor, não vejo como o encontro de dois seres que se amam, ainda que o objetivo não seja a procriação, possa estar em desacordo com os princípios da lei de Deus. Contudo, a hipocrisia sempre acompanhou a homossexualidade. Os homossexuais têm o direito de expressar a sua natureza, desde que não venham a constranger os outros (de acordo com os padrões de cada sociedade) com atitudes jocosas que denunciam fraqueza e tentativa de impor a sua diferença, ao invés de naturalmente se colocarem na sociedade, contribuindo para que, progressivamente, sejam vistos como pessoas normais e sujeitas, a princípio, às mesmas dificuldades de adaptação ao mundo que os heterossexuais. Cada um de nós tem o direito à livre escolha de, no seu íntimo, aceitar ou não a homossexualidade no outro (colocando seu ponto de vista claramente ou fazendo vista grossa) e em si mesmo, se for o caso (manifestando sua verdade, reprimindo a sua expressão ou ainda reagindo à sexualidade alheia). Entretanto, ninguém tem o direito de desrespeitar, hostilizar ou agredir o homossexual.
No mundo da expressão material, é difícil para cada ser viver de acordo com a verdade que vem do seu espírito, qualquer que seja seu aspecto, inclusive com relação à sexualidade. É preciso individualizar sempre e perceber que homossexualidade não implica, necessariamente, em perversão. E que os estereótipos aparecem como uma forma de se fortalecer para lutar contra a exclusão advinda do preconceito. Entretanto, indivíduos homossexuais nem sempre se desestruturam na afirmação de sua sexualidade numa sociedade que tenta reprimir o que parece diferente. Há, a cada dia, homossexuais mais harmonizados com a sua natureza, que se colocam na sociedade sem medo do desrespeito e vivem relações estáveis, equilibradas, sujeitas aos mesmos altos e baixos dos relacionamentos heterossexuais e baseadas em laços de amor onde os parceiros mostram um bom autoconhecimento, podendo prescindir de ligações juridicamente respaldadas. Mas é claro que há os homossexuais que se desestabilizam, que sofrem com o preconceito e vivem relações superficiais, o sexo pelo sexo, estando mais sujeitos a doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a AIDS (assim como ocorre com os heterossexuais), onde só a proteção no nível material (preservativos) muitas vezes é ineficiente, quando existe o desequilíbrio energético pelas experiências vividas por um espírito conturbado.

A sexualidade é assunto de grande complexidade, quando deveria ser vivenciada com simplicidade. O homossexual é um ser diferente e a aceitação da diferença, com toda a dificuldade que ela traz, começa com a autoaceitação e o respeito por si mesmo. E é pena que a noção de pecado sustentada por algumas religiões ainda consiga enfraquecer aqueles que tanto necessitam compreender a sua natureza que é inquestionável e se manifesta desde tenra idade, gerando tanta repressão e consequente frustração ainda nos dias de hoje, o que inevitavelmente leva a projeções, camuflagens e violência auto e heterodirigida.

Cada pessoa tem seu caminho de desenvolvimento espiritual, cada qual com a sua natureza. Ser homossexual não é necessariamente bom ou ruim. Apenas é. E o importante é como cada homossexual vive a sua sexualidade em todos os âmbitos de sua vida e nas relações consigo mesmo, com o outro, com o mundo e com a espiritualidade.

sábado, 8 de janeiro de 2011

A Boneca

Rostinho rosado de porcelana, os olhinhos vivos e amorosos. Vestidinho vaporoso e azul esverdeado qual água marinha. Ela me conquistou ao primeiro olhar. Era uma bonequinha que apaziguava os corações de tão delicada expressão que tinha. Seus cabelos louros, presos num pequeno coque e encimados por fita de mesma cor do vestido e do sapatinho davam-lhe uma graça especial. Mas, o que mais sobressaía nela, além do olhar era o sorriso afetuoso. Quantas crianças ela estava fadada a conquistar? E quantos adultos, de súbito, desencantariam suas porções criança, tão cotidianamente soterradas pelas demandas da vida adulta (tão ditatoriais quanto sem graça)? Com certeza, se ela fosse presenteada ao ser mais maduro, no que se refere à chatice de ter crescido, ele não poderia esconder ao encará-la a fenda por onde escaparia um quê de doçura, fantasia e espontaneidade que só as crianças sabem traduzir na expressão quando alguma coisa as encanta e arrebata. Que momento mágico aquele que permite a volta à infância no que ela teve de bom, belo, acolhedor, apaziguador em cada pessoa, apesar dos conflitos, das dores, dos tormentos que vieram depois!
A beleza é assim: tem o poder de resgatar no fundo do nosso ser aqueles tesouros que foram sendo amealhados ao longo da vida e que de tão escondidos, por vezes até mesmo o dono se esquece que os possui. E, ainda que o conceito de beleza possa variar de acordo com o observador, existe naquilo que toca fundo o coração uma tal harmonia que é universalmente percebida, não há quem esteja imune ao seu feitiço. E essa bonequinha é assim: um mimo que dá vontade da gente dar de presente pra todo mundo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Recesso da Realidade

Creio que essa época de festas, o Natal, pode ser sentida por muitas pessoas como um tempo em que elas têm o direito de estarem protegidas da realidade com suas dificuldades cotidianas, um tempo em que a fantasia impera e sonhamos com um mundo maravilhoso, cheio de cores, carinhos, presentes, desejos satisfeitos, pessoas afetuosas e gentis, esperanças, repleto de amor e abundância.
Cada um de nós tem todo o direito de viver este estado de espírito. Isto é lindo e cria uma aura de beleza que envolve aqueles que o vivenciam desta forma e se expande, afetando também aqueles que são menos dotados da capacidade de abstrair ou mesmo incapazes de ignorar que, apesar do Natal, o mundo continua o mesmo, apesar da enxurrada de propagandas dos lojistas e do apelo da mídia para atenuar o clima de horror que ela mesma alimenta durante todo o ano.
Entretanto, esta facilidade de podermos voltar a ser crianças, sentindo desta forma nas semanas das festas, que faz tanto bem a todos nós, pode ser exercitada, nos capacitando a mudar o nosso estado de espírito, mesmo frente aos momentos estressantes de perda e de dor, conseguindo estar em paz. É tipo poder ser feliz, sentir-se em paz sem que para isso tenhamos que esperar os fins de semana, as férias, as festas.
E creio que encontrar o sentido profundo de transformação, de renascer depois de uma morte simbólica, de deixar surgir o novo quando o velho já caducou em nossas vidas, a partir da elaboração, discussão e inspiração que vêm quando o tema é a morte, pode ser interessante apesar de ser dezembro.

A Morte Nossa de Cada Dia

Votei neste tema tão inspirador e logo sabia que iria participar com algum texto. É que a morte sempre marcou a minha vida, desde pequena. Não que eu tenha perdido muitas pessoas desde cedo. Pelo contrário, perdi meu pai quando tinha 42 anos e minha mãe aos 49. A minha avó materna perdi aos 39 anos e antes disso, só um primo querido quando eu estava no ginásio e uma cunhada que era como uma irmã, aos 47 anos. Apesar disso, muito criança eu ficava inquieta e tremia só de pensar na possibilidade da morte dos meus pais, minha avó ou meus sete irmãos. Fantasiava sobre isso, me sentia atormentada por qualquer alusão à morte ou doença. Não foi por acaso que decidi ser médica. Talvez pensasse em poder superar a morte. Acho que todo profissional dessa área gosta de brincar de Deus. Só que ao longo de minha vida descobri que para tratar o medo da morte, o segredo é o mesmo que para lidar com outros medos. É preciso chegar perto, enfrentar ou pelo menos conhecer. O medo de algo desconhecido se intensifica, fugir de algo que se teme não é boa coisa. E como filha de Plutão que sou, de qualquer forma a morte iria correr atrás de mim, até que eu me tornasse sua amiga e assim ela deixasse de me incomodar.
E foi dessa forma que presenciei a morte de várias pessoas, desde quando estava na barriga de minha mãe, que fui atraída por uma especialidade em que durante mais de 20 anos fiz autópsias, até que há uns 10 anos me interessei por terapia de vidas passadas e estou mais ligada a esta prática atualmente.
Não sinto mais qualquer desconforto diante da morte, não porque não sofra com as perdas ou ache natural que o corpo deteriore. Aprendi a aceitar a finitude da vida e acredito mesmo que este detalhe seja um fator de enriquecimento da nossa existência. Mas gostaria que a morte fosse um processo natural, sem tanto estresse por negação e sem tanta parafernália, e sim como era antigamente. Mas tudo tem o seu lugar neste mundo e cada um morre conforme vive.
Penso que refletir sobre a morte todos os dias nos ajuda a evoluir, a tomar atitudes e fazer escolhas mais apropriadas na vida. Tenho habilidade para lidar com doentes terminais que têm muito a nos ensinar e creio que a morte sempre funciona como uma oportunidade para os que estão próximos, podendo ser um ponto de mutação, desde que seja encarada com a dignidade que desperta quando aparece em nossas vidas.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A Morte (Pelos Olhos de Quem Vê)

A própria morte pode parecer penosa
Mas a passagem não é assim tão ruim
No tempo certo todos estarão preparados
Ainda mais porque expirar não é o fim.

A morte dos outros pode ser ensinamento
Para aqueles que quiserem se aproximar
Verão tranquilidade nos olhos que se ampliaram
E já não enxergam a luz que os guiará.

É momento de reflexão e lucidez
Onde cada coisa adquire o real valor
Existe a possibilidade de compreender
Que tudo é passageiro, exceto o amor.

É como se uma aura de verdade
Enchesse os lares onde alguém partiu
Cessam as contendas por iniquidades
Se a gente entende a vida como um rio

Tudo passa, nada permanece
Só se leva da vida o que se aprendeu
O amor que expressamos é a nossa prece
E nos liga para sempre a quem já morreu.

Sobre a Morte

Não há porque se inquietar
Se existe outra opção
Afinal, a morte é só mais um bilhete
Rumo à próxima estação.

Morte é convidada ilustra
Que sempre causa um frisson
Às vezes chega, mas não fica,
Só deixa no ar a transformação.

Há os que aceitam o convite
E partem com ela de braços dados
Se não é o momento, não ultrapassam o limite
Mas voltam, certamente, transformados.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

É Natal

É Natal.
Vamos permitir que nasçam em cada um de nós sentimentos de fraternidade, de amor ao próximo, de tolerância com os outros e com aspectos nossos que não apreciamos.
Vamos tentar permitir que aquilo que em nós ainda é latente se desenvolva e possamos descobrir novos talentos, novas capacidades de interagir com os outros e produzir coisas boas.
É importante, sobretudo, que estejamos atentos para buscar a transformação daquilo que é inadequado, que tira a nossa felicidade, que nos distancia dos outros e impede a expressão do amor que reside no fundo de nós. Transformar-se é poder evoluir.
Que nesse Natal nós possamos nos abrir mais para o amor, abandonando defesas desnecessárias e fortalecendo realmente o nosso Ser que naturalmente procura o estado de união. Afinal, somos todos irmãos e não podemos estar bem enquanto tantos sofrem, se hostilizam ou são indiferentes na sua solidão, além da necessidade do encontro consigo mesmos.
Feliz Natal!