quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Meditação da Água

Lentamente escorrego para fora da cama, meio trôpega ainda, meio cega, um tanto atônita, com o peito carregado ainda pelas emoções da noite que passou e me dirijo ao banheiro.
Ainda sem enxergar, molho as mãos na água fria e banho o rosto num movimento de acariciar a pele, acordando-a devagarzinho. Encho a boca de água, banho o nariz, os olhos e vou percebendo melhor o início do dia. Seco o rosto, as mãos e ando até a cozinha onde escancaro a janela e páro ao lado do filtro de barro.
É aqui que se inicia o ritual de uma meditação. Nesse momento, eu me confundo com a manhã e vou acordando como ela. Eu com a água, ela com o sol.
Olho para fora da janela e me deslumbro com o dia que ainda não é de todo. O céu ainda é chumbo. A cidade dorme. Olho por cima dos prédios. Estou bem no alto. Vejo a copa das árvores, os edifícios ao longe, a rua ainda deserta.
A janela aberta me permite ouvir o som de fora. Ainda não há os sons de costume, aqueles que ouvimos diariamente, a partir de certa hora: sons de buzinas, de motores de carros, ônibus, sons de correria, de loucura, de gritos que libertam por momentos curtos, almas imprensadas numa cidade já quase desumana.
Agora os sons são tranquilizadores. Escuto o vento, o farfalhar das folhas das árvores, algum tímido passarinho que já acordou, um cachorro sonolento que tenta dizer aos donos que já está de pé. E ouço os galos cantarem. Não sei bem onde ainda existem galos nessa cidade. Mas o fato é que eles me acompanham. Onde quer que eu vá sempre escuto um galo cantar na manhã, me trazendo a infância de volta todos os dias, a me lembrar que ainda sou quem sempre fui, que minha pureza e espontaneidade, minha emotividade estão guardadas em mim e, a qualquer instante, podem ser acordadas por esses galos do alvorecer.
Encho o primeiro copo de água, limpinha, fresca, do filtro de barro. Olho a água como se olhasse o mar. Chego a sentir o cheiro de maresia e o frescor da brisa que sopra perto do mar. É o primeiro copo dos seis que vou bebendo devagar todas as manhãs, inaugurando meu dia com esse contato silencioso com o mundo, um contato sem palavras, só de sensações, de captar com todos os cinco sentidos a vida que está em volta. Assim, vou me acordando e despertando outros sentidos. A água enche minha boca e escorre para dentro. Isso mexe com a respiração. Respiro o dia, resgato todos os dias o bebê que respira pela primeira vez, a descoberta do mundo. Escuto um passarinho, o som limpo. Vejo uma janela se abrindo, alguém se levanta e começa a viver o hoje.
Bebo outro copo e o fluxo das águas em mim me faz perceber um movimento do meu tubo digestivo, que vai acordando. Percebo barulhos internos enquanto olho o céu que agora já está sendo rasgado pelo sol. Já não é chumbo, já há claridade. Um sino soa ao longe. Bebo mais água. Alguns músculos se soltam nas costas. Os olhos estão mais abertos, já vejo com nitidez o mundo lá fora. Penso na noite de ontem. Sinto a felicidade de estar viva, de amar, de ter vindo até a janela com minhas próprias pernas. A água que molha meus tecidos e abastece meus órgãos, limpa as vísceras, traz renovação, me acorda, me purifica. Os pensamentos são claros. A cada copo que bebo sinto que me abro pra vida como a noite que vai-se afastando aos poucos, permitindo que o dia chegue com o sol. E o céu vai-se abrindo. Os passarinhos voam. Escuto o barulho do meu intestino espreguiçando lá dentro. Já estou no quinto copo. E quero mais água. Sinto as ondas chegando para mim, por dentro, mas é como se estivesse no mar. As ondas me cobrem, a água traz o fluxo da vida.
A cidade vai acordando, eu recebo mais esse dia, feliz por estar comigo, por me perceber inteira, por sentir que amo, que sou amada, que dormi bem, que continuei o sonho do fim da noite e vou levá-lo comigo no coração, nesse dia que já nasceu.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Dúvida

Sublime ignorância: quando dei por mim estava a um passo do ridículo. O que fazer quando a emoção nos embota a razão a ponto de suprimir todo o conhecimento prévio?

Atitude

Nos dias de hoje, se souberes lidar com a raiva e a tristeza em qualquer momento e se fores sempre paciente, valerás por cem homens.

Comida do Terceiro Milênio

Luz alimenta.
Nem só de matéria
O corpo vive.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Paciência

Escaparás de cem dias de raiva ou um momento de tristeza se fores paciente nessa vida.

Consciência

Saber decodificar o exato instante, que mensagem ele nos apresenta. O que cabe a nós aquiescer? Estamos aqui, quem sabe para consentir apenas, para aceitar os acontecimentos e tirar de cada vivência o melhor que ela puder nos dar (vide “Seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu.”).
Mas somos seres teimosos por natureza. Achamos que podemos ter o controle, que sabemos o que sempre devemos fazer ou viver.
Vã inocência! Que idiotas somos nós.
É preciso entender que devemos simplesmente confiar, pois só à Vida tudo devemos e só ela sabe do plano maior reservado para nós.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Tristeza

Tristeza é pensar que escaparás do inferno se fores paciente por cem dias sem sentir raiva por um momento.

Dia das Mães

Parabéns, mamães.
Vocês merecem tudo:
Paz, amor, beijos.

Mãe dá semente,
Faz o rebento crescer
Dando seu amor.

domingo, 17 de maio de 2009

Constatação

Se por cem dias fores paciente, não se permitindo um só momento de raiva, ainda assim não escaparás da tristeza.

Destinos Cruzados, Escolha Equivocada

Enfim chegou o tão esperado dia, o dia em que iam todos à praia. Acordaram bem cedo e foi uma farra desde antes de todos entrarem no carro e, na maior bagunça, seguirem rumo ao mar.
A viagem era longa, vários quilômetros até lá. Precisavam sair bem cedo, para pegar o melhor do sol da manhã, porque eram cinco crianças e todas já quase pretas de tanta exposição continuada nas brincadeiras de todos os dias na piscina de plástico colocada no quintal, naquelas férias inesquecíveis. Nem queriam comer ou beber alguma coisa antes de sair. Estavam ávidos pelas brincadeiras. Só acordaram, molharam o rosto, fizeram xixi e trocaram os pijamas pelos calções e maiôs. Vinham correndo, descendo as escadas sonolentos, tropeçando nas toalhas, baldinhos, deixando cair pás, bolas e outros brinquedos.
O pai e a mãe os acompanhavam, mas principalmente o pai, não dispensava o café quente que tomava devagar, enquanto comia, se deliciando, o pão quentinho da padaria do bairro, trazido pela esposa que tinha muito mais energia que ele nas primeiras horas da manhã, tão habituada que estava com o excesso de disposição dos filhos que a consumia de manhã à noite, quando o último conseguia pegar no sono.
Seguiram então os cinco, se estapeando no banco de trás, gritando uns com os outros, reclamando a interferência da mãe para resolver questões entre eles, geradas por ciúmes ou birra mesmo.
Já estavam agora, acordadíssimos e ainda não eram sete horas. O trânsito ainda estava fluindo bem e já chegavam à estrada principal que os levaria ao tão sonhado destino, quando um barulho alto e repentino, seguido de um pequeno solavanco anunciou que um pneu havia estourado. Pararam no acostamento debaixo dos berros dos pequenos que queriam sair, todos ao mesmo tempo, pela mesma porta, apertando a mãe que ficava espremida pelo banco empurrado por eles antes que conseguisse levantar completamente. Olharam para o pneu murcho e souberam que isto atrasaria ainda mais os seus desejos inadiáveis de cair na água e rolar na areia. O pai, apesar do café, ainda sonolento, saiu incrédulo para averiguar o que ocorrera. Era mesmo um rombo no pneu. Ele não havia simplesmente furado e sim rompido, deixando um naco de uns dois centímetros na borracha. Passou a mão pela testa molhada, abriu o porta-malas e qual não foi a surpresa ao verificar que o estepe não estava lá. Desesperado pensou: como? O que teria acontecido? Puxou para o lado todas as bungingangas deixadas ali pela esposa e as crianças, na esperança de que o pneu estivesse escondido, fora de lugar. Qual nada. Tinha sido mesmo retirado de lá. Repassou na memória se teria deixado o carro para limpeza ou conserto em algum lugar, recentemente. Mas não. Estava certo de que não fizera isso. Mas e aí? Qual seria a explicação? Agora já começava a ficar vermelho, enquanto as crianças o puxavam pelo braço, gritando que trocasse logo a roda, que queriam seguir para a praia. Estava atônito. Voltou-se para pedir a ajuda da esposa que meio amarela, estava no extremo oposto e gaguejando, confessou que tinha retirado o estepe na semana anterior, para transportar algumas coisas na mala até a casa da irmã que ficava na mesma rua onde moravam e, por um desses caprichos do destino, tinha esquecido de repor o estepe no carro.
E agora? Não poderiam prosseguir até a praia. Não tinham como sair dali. Como comunicar isto às crianças? Como contê-las na sua ânsia? E como garantir a ordem, se ambos não sabiam dar limites nem a si mesmos?
Entreolharam-se com muita raiva, querendo um pular no pescoço do outro para reclamarem de tantas insatisfações mútuas acumuladas, enquanto em volta, as crianças absorviam aquele clima de tensão e se gadunhavam entre berros. Ele, arrependido por um dia ter desposado alguém assim tão desatento e irresponsável. Ela, maldizendo o dia em que conheceu um sujeito tão descansado, a quem pedia a mesma coisa inúmeras vezes seguidas, antes que se dispusesse a sair do lugar. Afinal, era ele quem deveria há semanas atrás, ter transportado os objetos para a casa da cunhada e não ela. Ele, bêbado de sono, preferiria estar ainda dormindo em casa, naquele sábado abafado, só tendo concordado com aquele passeio, tipo programa de índio, por insistência dela e dos filhos mal educados. Ela, gostaria de ter um marido que participasse mais,que como ela, apreciasse sair sempre, ter contato com a natureza, brincar com as crianças, tão livres quanto ela, ao invés de preferir passar os fins-de-semana dormindo no quarto, saindo somente na hora das refeições ou para assistir àqueles jogos insuportáveis pela televisão.
Queriam os dois sumir dali, um de perto do outro para sempre. Mas, como as crianças ignorassem o impasse em que se encontravam, arrefeceram os ânimos e enquanto ele telefonava para o reboque do seguro, ela fazia cara de emburrada, só quando olhava para ele. E continuava alegre, às risadas, brincando de pique-esconde com os filhos, em pleno acostamento de uma rodovia movimentada, até que finalmente, à tarde, foram socorridos pelo reboque, pondo um fim àquele pesadelo.