segunda-feira, 11 de maio de 2009
Consciência
Atrás do vento vêm as tempestades e inundações. Não adianta correr nem lamentar o que havia no passado. O jeito é reconstruir tudo.
A Mulher e a Batedeira
Era uma senhora de olhar vivíssimo. Sentada em sua cadeira de balanço, tomava conta de tudo que se passava na casa. Não era uma cadeira comum, dessas austríacas. Não. A sua cadeira era corpulenta, como ela. Mais parecia um trono. E girava, para que a visão do mundo se assemelhasse à do gavião. Não era uma ave de rapina, essa mulher no alto dos seus oitenta e um anos. Era antes uma mãe, na concepção mais antiga da palavra, imagem de proteção calorosa por debaixo de suas asas, mas sem esquecer da visão aguda, da percepção do todo que era a sua marca e, principalmente, do olhar hipnotizador.
Agora, reinava em sua cadeira, de onde saía somente para o banho, descansar durante o dia, as horas de sono da madrugada ou para um ocasional passeio de carro que era o seu êxtase. No mais, permanecia sentada, atenta, interagindo com todos na casa, dando idéias, ensinando a fazer a comida do seu jeito, pois sessenta e tantos anos de cozinha não eram para se jogar fora e, afinal, queria a comida exatamente ao seu gosto.
Ela era meticulosa sim. E exigente. Tudo devia correr dentro do previsto. Acompanhava as horas. Havia em sua casa inúmeros relógios, em todos os cômodos, até no banheiro, em alguns lugares mais de um. Era justificado. Passara toda a sua vida, prisioneira do relógio ou, quem sabe, estimulada por ele, desdobrando-se nas tarefas domésticas. Tivera doze filhos e sempre se queixava, pois, desses, dois nasceram prematuros e não vingaram por falta de cuidados médicos. Os outros dois, de uma gravidez de trigêmeos, tiveram morte intra-útero, no sétimo mês, tendo sobrevivido só uma das filhas, hoje magrinha, mas muito forte e corajosa. Ah, seus filhos, sua criação, muitos, pois que sempre fora exagerada. Exagera ainda hoje, velhinha. Não é daquelas anciãs sábias, sequinhas. Ela é roliça. O neto diz que parece um bujãozinho. O rosto é redondo, vermelhinho com os dois olhos pretos como azeitonas. São olhos tímidos. Mas quando não se olha para eles - que então ficam envergonhados e fogem - são firmes e atingem os olhares mais difíceis.
Ela é minha mãe. Talvez por isso mesmo a conheça tão bem. Ou melhor, só passei a conhecê-la assim depois que afastei a idéia de que justamente era minha mãe. E mais, só pude vislumbrar a sua riqueza quando deixei de adivinhá-la; eu que sempre sabia o que esperar dela, presenteei-a com a liberdade de dela nada mais esperar, permitir que depois de tantos anos de vida pudesse ser o que realmente era.
Pois que essa senhora não era só a mãe prestimosa, aquela que fazia milagres com os parcos recursos do marido padeiro. Nem somente aquela que “batia” na máquina de costura madrugadas inteiras para poder formar os filhos em colégios particulares, seu maior orgulho. Ou alguém de extrema competência que arrumava, lavava, cozinhava, costurava para a família e para ganhar dinheiro, orientava, acarinhava e ainda estimulava a independência e auto-suficiência nos filhos. Só não lhe sobrava muito tempo para amar. Com a chegada dos filhos foi sufocando dentro dela o amor de mulher. Assim o seu corpo foi engordando de desejo represado. Distanciou-se de si mesma e do marido, seu amor. Não poderia vê-lo de fato, não poderia dispor de tempo para ela com tantos filhos sob sua proteção. E para não amá-lo com o desejo que tinha que sepultar dentro de si, só não o enxergando. Passou com os anos a ignorá-lo, a despeito de amá-lo tanto. E não olhando para ele deixava de olhar também para si. E dessa forma o tempo foi passando e essa distorção foi sendo tida como a realidade. Mas não era. A realidade que trazia em si era um amor forte, intenso, daqueles que o corpo parece não suportar de tão profundo.
Essa mulher escondeu-se de si por tantos anos que quase apagou o resto de doçura que guardava em seu peito, ainda hoje macio e acolhedor. Acho que por isto teve um infarto.
O amor motivou toda a sua vida. Mas escondia dos filhos e talvez do próprio marido o sentimento forte. Passava por alguém pragmático, que só se importava com as obrigações, que se fazia refém das culpas vindas não se sabe de onde. Escondia o fervor que tinha pela vida, a tendência romântica. Eu mesma, a caçula, cresci sem assistir uma vez que fosse a uma demonstração explícita de carinho entre os meus pais. Nunca presenciei um beijo, um abraço, salvo nos aniversários e no Natal, verdade seja dita. Pode-se dizer que ela endureceu para se proteger de si mesma. Que bobagem! Ninguém consegue fazer isso para sempre.
Agora essa mulher roliça, de olhos vivos, deixou-se florescer. Imaginem que se libertou depois que teve um acidente vascular cerebral! Deixou que caíssem por terra todas as suas resistências. É certo que somente depois de muito brigar e espernear, tentando manter-se como sempre tinha sido. Finalmente suavizou-se. Agora os seus movimentos são mais lentos, eu diria mesmo que ganhou uma certa sensualidade. A fala não é mais aquela rajada de metralhadoras de antes, quando ficava irritada. Fala pausadamente. E o ganho maior e mais surpreendente: a lesão cerebral deixou que sua emoção aflorasse. Que sábio é o organismo! Minha mãe chora com facilidade, emociona-se frequentemente, exagera como sempre, é certo. Esse coração, antes lacrado, escorre amor por toda ela que se derrama em doçura todo o tempo. Passou a ouvir músicas românticas, presta atenção às letras e proclama o amor com entusiasmo. Diz que todos os filhos precisam ouvir, que suas vidas, principalmente na área conjugal, melhorariam sensivelmente se eles seguissem os conselhos de Zezé di Camargo.
Em sua cadeira-trono ouve músicas de amor o dia todo. E se perto dela surge uma discussão mais inflamada, aumenta o som para abafar a confusão tão desnecessária. Essa sábia senhora continua ensinando a todos nós.
Minha mãe é assim, arrebatadora e surpreendente. Não é dessas velhinhas que esclerosam e passam a falar coisas sem muito nexo, se bem que, sabendo-se ouvir, nenhuma manifestação na velhice é de todo descabida. Ela mantém a coerência, só que consegue a transformação quase imediatamente, deixando os filhos atônitos por mudar de forma tão rápida seus pontos de vista de tantos anos.
Antes, ela ignorava a necessidade da vida afetiva dos filhos. Hoje, ela estimula. Antes, ela era rígida e agora é mais flexível do que a neta consegue ser. No passado, se torturava com o excesso de trabalho e hoje, se deleita com o lazer e faz questão de se presentear com passeios, descanso e festas. Quis festejar seus 80 anos, depois 81 e no próximo ano terá a festa dos 82 anos. Vejam só, ela que nunca fazia para si nem um bolinho de aniversário, só para os filhos, é claro.
Nessa jornada que foi a sua vida, o marido se foi há três anos. A propósito, ela teve o derrame enquanto ele estava internado numa clínica para idosos. Perdeu o seu amor com uma compreensão invejável. Aceitou a vontade da Vida. Depois de 63 anos juntos ele se foi. Não aconteceu de repente. Ele ficou preparando sua partida por cinco anos. Tão ligado a ela, não poderia ir assim rapidamente. Acho que ela foi-se acostumando a não tê-lo mais nos seus dias, pois que o guardava como um cão, sem muito espalhafato, mas acompanhando o dono com o olhar de um enorme carinho. Brigava com ele o dia todo, implicava pelas mínimas coisas ao invés de declarar logo seu amor, com palavras e gestos. Aprendeu, enfim, a duras penas, a demonstrar o seu afeto.
Por tudo isso, não me surpreendo de agora vê-la, quase todas as manhãs, de pé junto à bancada do armário da cozinha, de frente para a batedeira, sentindo o cheiro que vem dela dizendo palavras entre dentes, como se conversasse com alguém. E pasmem, até já a vi beijando a borda do eletrodoméstico! A primeira vez que presenciei a cena não entendi nada. Depois, observei o que fazia e lhe perguntei com quem falava. Ao que ela me respondeu: com o seu pai, ele vem aqui todos os dias. Sente só o cheiro na batedeira, disse-me ela. Agora ele está aqui. Quando não está, o cheiro some.
Ocorre que meu pai, antes de ser funcionário público, agente administrativo no Ministério do Trabalho, era padeiro. Foi gerente de padarias por muitos anos. Em toda a sua mocidade fazia pães deliciosos e no primeiro encontro com a minha mãe, onde trabalhava, ofereceu-lhe um lindo pão doce que naquele tempo vinha recheado (alguns exemplares, de surpresa para os fregueses afortunados) com aneizinhos. Nada mais coerente do que o que ela estava dizendo. Ele tinha cheiro de farinha, era o perfume daquelas mãos grandes e habilidosas, lindas que eu bem conhecia, e ela, muito melhor do que eu.
Passei a observar. Por várias vezes já senti o cheiro do meu pai naquela batedeira que hoje já não é quase utilizada, em ocasiões e datas importantes para a família. Às vezes, nem estou prestando atenção, conferindo se o perfume está ali e é o aroma que me atrai, me avisando que ele está presente naquele momento e acabo entendendo o porquê da sua visita. Confesso mesmo que, por várias vezes, conversei com o espírito do meu pai naquele lugar, em situações difíceis de nossas vidas, como se faz num santuário.
E para a minha mãe é simples assim: ele se foi, ela tem saudades, o amor permanece e liga os dois. Para ela, ele vem, ainda vive fora do corpo, ela sente o seu cheiro e o seu coração se alegra: ele está ali.
Minha mãe, a batedeira, meu pai, o amor unindo as pessoas, antes e depois da vida. A morte não existe mesmo, concluí.
Agora, reinava em sua cadeira, de onde saía somente para o banho, descansar durante o dia, as horas de sono da madrugada ou para um ocasional passeio de carro que era o seu êxtase. No mais, permanecia sentada, atenta, interagindo com todos na casa, dando idéias, ensinando a fazer a comida do seu jeito, pois sessenta e tantos anos de cozinha não eram para se jogar fora e, afinal, queria a comida exatamente ao seu gosto.
Ela era meticulosa sim. E exigente. Tudo devia correr dentro do previsto. Acompanhava as horas. Havia em sua casa inúmeros relógios, em todos os cômodos, até no banheiro, em alguns lugares mais de um. Era justificado. Passara toda a sua vida, prisioneira do relógio ou, quem sabe, estimulada por ele, desdobrando-se nas tarefas domésticas. Tivera doze filhos e sempre se queixava, pois, desses, dois nasceram prematuros e não vingaram por falta de cuidados médicos. Os outros dois, de uma gravidez de trigêmeos, tiveram morte intra-útero, no sétimo mês, tendo sobrevivido só uma das filhas, hoje magrinha, mas muito forte e corajosa. Ah, seus filhos, sua criação, muitos, pois que sempre fora exagerada. Exagera ainda hoje, velhinha. Não é daquelas anciãs sábias, sequinhas. Ela é roliça. O neto diz que parece um bujãozinho. O rosto é redondo, vermelhinho com os dois olhos pretos como azeitonas. São olhos tímidos. Mas quando não se olha para eles - que então ficam envergonhados e fogem - são firmes e atingem os olhares mais difíceis.
Ela é minha mãe. Talvez por isso mesmo a conheça tão bem. Ou melhor, só passei a conhecê-la assim depois que afastei a idéia de que justamente era minha mãe. E mais, só pude vislumbrar a sua riqueza quando deixei de adivinhá-la; eu que sempre sabia o que esperar dela, presenteei-a com a liberdade de dela nada mais esperar, permitir que depois de tantos anos de vida pudesse ser o que realmente era.
Pois que essa senhora não era só a mãe prestimosa, aquela que fazia milagres com os parcos recursos do marido padeiro. Nem somente aquela que “batia” na máquina de costura madrugadas inteiras para poder formar os filhos em colégios particulares, seu maior orgulho. Ou alguém de extrema competência que arrumava, lavava, cozinhava, costurava para a família e para ganhar dinheiro, orientava, acarinhava e ainda estimulava a independência e auto-suficiência nos filhos. Só não lhe sobrava muito tempo para amar. Com a chegada dos filhos foi sufocando dentro dela o amor de mulher. Assim o seu corpo foi engordando de desejo represado. Distanciou-se de si mesma e do marido, seu amor. Não poderia vê-lo de fato, não poderia dispor de tempo para ela com tantos filhos sob sua proteção. E para não amá-lo com o desejo que tinha que sepultar dentro de si, só não o enxergando. Passou com os anos a ignorá-lo, a despeito de amá-lo tanto. E não olhando para ele deixava de olhar também para si. E dessa forma o tempo foi passando e essa distorção foi sendo tida como a realidade. Mas não era. A realidade que trazia em si era um amor forte, intenso, daqueles que o corpo parece não suportar de tão profundo.
Essa mulher escondeu-se de si por tantos anos que quase apagou o resto de doçura que guardava em seu peito, ainda hoje macio e acolhedor. Acho que por isto teve um infarto.
O amor motivou toda a sua vida. Mas escondia dos filhos e talvez do próprio marido o sentimento forte. Passava por alguém pragmático, que só se importava com as obrigações, que se fazia refém das culpas vindas não se sabe de onde. Escondia o fervor que tinha pela vida, a tendência romântica. Eu mesma, a caçula, cresci sem assistir uma vez que fosse a uma demonstração explícita de carinho entre os meus pais. Nunca presenciei um beijo, um abraço, salvo nos aniversários e no Natal, verdade seja dita. Pode-se dizer que ela endureceu para se proteger de si mesma. Que bobagem! Ninguém consegue fazer isso para sempre.
Agora essa mulher roliça, de olhos vivos, deixou-se florescer. Imaginem que se libertou depois que teve um acidente vascular cerebral! Deixou que caíssem por terra todas as suas resistências. É certo que somente depois de muito brigar e espernear, tentando manter-se como sempre tinha sido. Finalmente suavizou-se. Agora os seus movimentos são mais lentos, eu diria mesmo que ganhou uma certa sensualidade. A fala não é mais aquela rajada de metralhadoras de antes, quando ficava irritada. Fala pausadamente. E o ganho maior e mais surpreendente: a lesão cerebral deixou que sua emoção aflorasse. Que sábio é o organismo! Minha mãe chora com facilidade, emociona-se frequentemente, exagera como sempre, é certo. Esse coração, antes lacrado, escorre amor por toda ela que se derrama em doçura todo o tempo. Passou a ouvir músicas românticas, presta atenção às letras e proclama o amor com entusiasmo. Diz que todos os filhos precisam ouvir, que suas vidas, principalmente na área conjugal, melhorariam sensivelmente se eles seguissem os conselhos de Zezé di Camargo.
Em sua cadeira-trono ouve músicas de amor o dia todo. E se perto dela surge uma discussão mais inflamada, aumenta o som para abafar a confusão tão desnecessária. Essa sábia senhora continua ensinando a todos nós.
Minha mãe é assim, arrebatadora e surpreendente. Não é dessas velhinhas que esclerosam e passam a falar coisas sem muito nexo, se bem que, sabendo-se ouvir, nenhuma manifestação na velhice é de todo descabida. Ela mantém a coerência, só que consegue a transformação quase imediatamente, deixando os filhos atônitos por mudar de forma tão rápida seus pontos de vista de tantos anos.
Antes, ela ignorava a necessidade da vida afetiva dos filhos. Hoje, ela estimula. Antes, ela era rígida e agora é mais flexível do que a neta consegue ser. No passado, se torturava com o excesso de trabalho e hoje, se deleita com o lazer e faz questão de se presentear com passeios, descanso e festas. Quis festejar seus 80 anos, depois 81 e no próximo ano terá a festa dos 82 anos. Vejam só, ela que nunca fazia para si nem um bolinho de aniversário, só para os filhos, é claro.
Nessa jornada que foi a sua vida, o marido se foi há três anos. A propósito, ela teve o derrame enquanto ele estava internado numa clínica para idosos. Perdeu o seu amor com uma compreensão invejável. Aceitou a vontade da Vida. Depois de 63 anos juntos ele se foi. Não aconteceu de repente. Ele ficou preparando sua partida por cinco anos. Tão ligado a ela, não poderia ir assim rapidamente. Acho que ela foi-se acostumando a não tê-lo mais nos seus dias, pois que o guardava como um cão, sem muito espalhafato, mas acompanhando o dono com o olhar de um enorme carinho. Brigava com ele o dia todo, implicava pelas mínimas coisas ao invés de declarar logo seu amor, com palavras e gestos. Aprendeu, enfim, a duras penas, a demonstrar o seu afeto.
Por tudo isso, não me surpreendo de agora vê-la, quase todas as manhãs, de pé junto à bancada do armário da cozinha, de frente para a batedeira, sentindo o cheiro que vem dela dizendo palavras entre dentes, como se conversasse com alguém. E pasmem, até já a vi beijando a borda do eletrodoméstico! A primeira vez que presenciei a cena não entendi nada. Depois, observei o que fazia e lhe perguntei com quem falava. Ao que ela me respondeu: com o seu pai, ele vem aqui todos os dias. Sente só o cheiro na batedeira, disse-me ela. Agora ele está aqui. Quando não está, o cheiro some.
Ocorre que meu pai, antes de ser funcionário público, agente administrativo no Ministério do Trabalho, era padeiro. Foi gerente de padarias por muitos anos. Em toda a sua mocidade fazia pães deliciosos e no primeiro encontro com a minha mãe, onde trabalhava, ofereceu-lhe um lindo pão doce que naquele tempo vinha recheado (alguns exemplares, de surpresa para os fregueses afortunados) com aneizinhos. Nada mais coerente do que o que ela estava dizendo. Ele tinha cheiro de farinha, era o perfume daquelas mãos grandes e habilidosas, lindas que eu bem conhecia, e ela, muito melhor do que eu.
Passei a observar. Por várias vezes já senti o cheiro do meu pai naquela batedeira que hoje já não é quase utilizada, em ocasiões e datas importantes para a família. Às vezes, nem estou prestando atenção, conferindo se o perfume está ali e é o aroma que me atrai, me avisando que ele está presente naquele momento e acabo entendendo o porquê da sua visita. Confesso mesmo que, por várias vezes, conversei com o espírito do meu pai naquele lugar, em situações difíceis de nossas vidas, como se faz num santuário.
E para a minha mãe é simples assim: ele se foi, ela tem saudades, o amor permanece e liga os dois. Para ela, ele vem, ainda vive fora do corpo, ela sente o seu cheiro e o seu coração se alegra: ele está ali.
Minha mãe, a batedeira, meu pai, o amor unindo as pessoas, antes e depois da vida. A morte não existe mesmo, concluí.
domingo, 10 de maio de 2009
Mães Possíveis
Veio à minha mente a seguinte conexão: mãe-guardiã. Pensei no significado de ser mãe. Que complexidade! Que multiplicidade de formas de ser! Como vai além do estereótipo vinculado às campanhas comerciais! Que responsabilidade é ser mãe! Quantas cobranças! Que o digam os que frequentam consultórios de psicanalistas. E como é simples ser mãe deixando-se conduzir apenas pelo instinto!
Mãe é a que concebe, a que geralmente gesta, a que cuida, a que forma, a que guarda e protege (ou deveria). Cabe aos pais, à mãe, em particular, guardar o filho até que ele possa caminhar sozinho pela vida. E, neste aspecto, persiste a diversidade, cada filho tornando-se capaz no seu próprio tempo.
No seu dia as manifestações de apreço se multiplicam, seus valores ficam enaltecidos, a emoção transborda naqueles que contam com suas mães a seu lado e naqueles que a perderam por morte ou afastamento de qualquer tipo. E falam delas como se todas tivessem apenas aspectos positivos. E onde ficam a mágoa, o rancor, a rejeição, a omissão, a maldade, as perversões e tantas variáveis que fazem parte do humano? Porque cada mãe é de um jeito. E todas têm o direito de ser o que são nesta vida de aprendizados. Por que não concebê-las dentro da realidade de cada uma, ao invés de endeusá-las? Até porque a categoria mãe está intrincada numa teia complexa das relações humanas regidas por suas leis naturais, entre elas a de causa e efeito.
Entretanto, quando se fala de mãe, é certo que se acende em nós um grande letreiro luminoso onde se escreve AMOR. E a mãe de cada um expressa este amor dado em abundância, restringido, negado. Seja o que for, no fundo é amor.
Então não seria melhor, ao invés de idealizarmos, dificultando a relação, aceitarmos a mãe que temos, compreendendo, tentando perdoar, adorando, agradecendo de joelhos por ela, engolindo, caminhando ao lado, relevando, odiando, mantendo longe, substitindo etc., todas estas coisas juntas ou separadamente?
Todas as mães são importantes nas vidas dos filhos, mas nem todas são apenas anjos ou demônios. São humanas em toda a sua complexidade e diversidade. Há as que têm vocação para corresponder ao estereótipo, há as que são o oposto dele, há as que grudam nos filhos e exageram, há as que são distantes e omissas, há as chatinhas, as malvadas, as inúteis, as desajeitadas, as competidoras, as depressivas. Há tantas que não caberia aqui citá-las.
Mas para todas elas, as que trouxeram o filho à vida, as que cuidaram e criaram, as substitutas, as de consideração, aos pais-mães, a todos que representam esta categoria, cabe o respeito de todos nós.
E, certamente, cada um de nós, neste dia, terá a quem dedicar o amor e agradecer por ter honrado o título de mãe em sua vida.
Parabéns a todas as mães possíveis deste planeta.
Que possam ter sempre a liberdade de apenas ser.
Mãe é a que concebe, a que geralmente gesta, a que cuida, a que forma, a que guarda e protege (ou deveria). Cabe aos pais, à mãe, em particular, guardar o filho até que ele possa caminhar sozinho pela vida. E, neste aspecto, persiste a diversidade, cada filho tornando-se capaz no seu próprio tempo.
No seu dia as manifestações de apreço se multiplicam, seus valores ficam enaltecidos, a emoção transborda naqueles que contam com suas mães a seu lado e naqueles que a perderam por morte ou afastamento de qualquer tipo. E falam delas como se todas tivessem apenas aspectos positivos. E onde ficam a mágoa, o rancor, a rejeição, a omissão, a maldade, as perversões e tantas variáveis que fazem parte do humano? Porque cada mãe é de um jeito. E todas têm o direito de ser o que são nesta vida de aprendizados. Por que não concebê-las dentro da realidade de cada uma, ao invés de endeusá-las? Até porque a categoria mãe está intrincada numa teia complexa das relações humanas regidas por suas leis naturais, entre elas a de causa e efeito.
Entretanto, quando se fala de mãe, é certo que se acende em nós um grande letreiro luminoso onde se escreve AMOR. E a mãe de cada um expressa este amor dado em abundância, restringido, negado. Seja o que for, no fundo é amor.
Então não seria melhor, ao invés de idealizarmos, dificultando a relação, aceitarmos a mãe que temos, compreendendo, tentando perdoar, adorando, agradecendo de joelhos por ela, engolindo, caminhando ao lado, relevando, odiando, mantendo longe, substitindo etc., todas estas coisas juntas ou separadamente?
Todas as mães são importantes nas vidas dos filhos, mas nem todas são apenas anjos ou demônios. São humanas em toda a sua complexidade e diversidade. Há as que têm vocação para corresponder ao estereótipo, há as que são o oposto dele, há as que grudam nos filhos e exageram, há as que são distantes e omissas, há as chatinhas, as malvadas, as inúteis, as desajeitadas, as competidoras, as depressivas. Há tantas que não caberia aqui citá-las.
Mas para todas elas, as que trouxeram o filho à vida, as que cuidaram e criaram, as substitutas, as de consideração, aos pais-mães, a todos que representam esta categoria, cabe o respeito de todos nós.
E, certamente, cada um de nós, neste dia, terá a quem dedicar o amor e agradecer por ter honrado o título de mãe em sua vida.
Parabéns a todas as mães possíveis deste planeta.
Que possam ter sempre a liberdade de apenas ser.
sábado, 9 de maio de 2009
Nem Tudo Está Perdido
Fiquei pensando sobre o que tenho lido ultimamente aqui no Duelos, sobre o distanciamento entre as pessoas que parece existir hoje. E fui recordando situações que também tenho observado e que denunciam esta rejeição voluntária de gente por gente. Concordo que o que parece estar acontecendo é que as pessoas têm medo, constrangimento ou mesmo falta de desejo de proximidade com desconhecidos, reservando, na maioria das vezes, os seus sorrisos e mesmo um simples olhar somente para os que lhes dizem respeito.
Assim, parece tão estranha essa correria do dia a dia, as relações tão impessoais no trabalho, as pessoas da mesma família que mal se olham depois que voltam para casa, as relações fugidias que se estabelecem nos momentos de lazer e mesmo os relacionamentos de amor tão esvaziados hoje do contato profundo, por também, quase sempre, este ser negado a si mesmas. Realmente é muito incômodo, para os que amam e se interessam pelas pessoas, serem privados da sua atenção e substituídos por estes aparelhinhos irritantes que berram outras palavras que não as suas, inigualáveis e insubstituíveis pelo simples fato de serem do seu interlocutor em potencial no irretornável momento presente, semente da mais maravilhosa relação de sua vida, talvez, por mais interessante que possa ser o que eles estejam ouvindo.
Mas penso que isto não está acontecendo por acaso, até porque muitas pessoas que reclamam disto também costumam ter comportamentos de ignorar as outras pessoas, sem se darem conta. Quantas vezes andamos pelas ruas e olhamos de fato para os que passam por nós? Será que no contato com as pessoas de nosso trabalho paramos para observá-las, realmente, na sua emoção e profundidade ou somente notamos a sua capacidade de trabalho naquele dia, nos ocupando apenas com críticas e julgamentos? As pessoas que se relacionam com a gente diariamente passam por transformações e acontecimentos marcantes em suas vidas, olham para nossas caras todos os dias e acabamos sabendo destes fatos relevantes só muito tempo depois, sem que tenhamos mesmo apenas suspeitado deles, ainda que estivéssemos ali todo o tempo. Estranho isto, não?
O fato é que parece que não temos tempo para o outro, porque não temos tempo para nós mesmos. E isto gera um incômodo tão grande que tentamos nos distrair para não enxergar do lado de fora o que reflete o grito que abafamos dentro de nós mesmos. Eu penso é que a realidade está tão difícil de encarar com todas as suas distorções de desigualdades, tristezas, injustiças e dores (que não se consegue compreender a não ser que se afine o olhar), que é preferível, para muitos, se refugiarem no seu próprio mundinho, protegidos por algo que os isole dentro de um universo particular, primorosamente concebido dentro das suas preferências.
Então o que fazer para resgatar a proximidade com o outro, esse nosso semelhante?? É preciso que tentemos enxergá-lo como tal, percebamos que estamos todos no mesmo barco e que os tempos são de vento nordeste; que há pressa sim, porque os dias agora parecem durar só 16 horas e não 24, como antes. Então, meus caros, nada de nostalgia de cadeiras nas calçadas, cartas escritas de próprio punho para amigos ou amantes, conversas acaloradas nos bancos dos ônibus entre aqueles que nunca tinham se encontrado antes, embora estas gotinhas de felicidade ainda possam existir e realmente aconteçam. A gente tem que se virar mesmo é com o que está disponível e ir tentando se afinar com formas de comunicação mais sutilizadas e rápidas, com o mundo virtual.
Da mesma forma, penso que as transformações que estão ocorrendo de forma tão rápida no planeta e que nos colocam num estado de alerta, com tantas catástrofes naturais, ao mesmo tempo também muito nos ensinam sobre responsabilidade com o meio ambiente e desapego.
Esta aparente distância entre as pessoas pode significar o estímulo para o aprendizado e a utilização de novas formas de relacionamento entre os homens, mais sutilizadas, eficazes e talvez mais profundas em que sejamos capazes de captar com um olhar mais abrangente, pelo entrelaçamento das auras ou pelo simples sentir o outro, muito mais do que as palavras e gestos explícitos de carinho poderiam transmitir.
Portanto, é imperioso ampliarmos os nossos sentidos indo em direção aos outros, sem distinção de quaisquer qualificações tão irrelevantes hoje, de raça, cor, credo, gênero, posição social, preferência sexual etc.
Não está longe o dia em que o amor será a regra e poderemos nos atirar com confiança, buscando nossos semelhantes para relações baseadas no respeito, liberdade, igualdade e fraternidade.
Assim, parece tão estranha essa correria do dia a dia, as relações tão impessoais no trabalho, as pessoas da mesma família que mal se olham depois que voltam para casa, as relações fugidias que se estabelecem nos momentos de lazer e mesmo os relacionamentos de amor tão esvaziados hoje do contato profundo, por também, quase sempre, este ser negado a si mesmas. Realmente é muito incômodo, para os que amam e se interessam pelas pessoas, serem privados da sua atenção e substituídos por estes aparelhinhos irritantes que berram outras palavras que não as suas, inigualáveis e insubstituíveis pelo simples fato de serem do seu interlocutor em potencial no irretornável momento presente, semente da mais maravilhosa relação de sua vida, talvez, por mais interessante que possa ser o que eles estejam ouvindo.
Mas penso que isto não está acontecendo por acaso, até porque muitas pessoas que reclamam disto também costumam ter comportamentos de ignorar as outras pessoas, sem se darem conta. Quantas vezes andamos pelas ruas e olhamos de fato para os que passam por nós? Será que no contato com as pessoas de nosso trabalho paramos para observá-las, realmente, na sua emoção e profundidade ou somente notamos a sua capacidade de trabalho naquele dia, nos ocupando apenas com críticas e julgamentos? As pessoas que se relacionam com a gente diariamente passam por transformações e acontecimentos marcantes em suas vidas, olham para nossas caras todos os dias e acabamos sabendo destes fatos relevantes só muito tempo depois, sem que tenhamos mesmo apenas suspeitado deles, ainda que estivéssemos ali todo o tempo. Estranho isto, não?
O fato é que parece que não temos tempo para o outro, porque não temos tempo para nós mesmos. E isto gera um incômodo tão grande que tentamos nos distrair para não enxergar do lado de fora o que reflete o grito que abafamos dentro de nós mesmos. Eu penso é que a realidade está tão difícil de encarar com todas as suas distorções de desigualdades, tristezas, injustiças e dores (que não se consegue compreender a não ser que se afine o olhar), que é preferível, para muitos, se refugiarem no seu próprio mundinho, protegidos por algo que os isole dentro de um universo particular, primorosamente concebido dentro das suas preferências.
Então o que fazer para resgatar a proximidade com o outro, esse nosso semelhante?? É preciso que tentemos enxergá-lo como tal, percebamos que estamos todos no mesmo barco e que os tempos são de vento nordeste; que há pressa sim, porque os dias agora parecem durar só 16 horas e não 24, como antes. Então, meus caros, nada de nostalgia de cadeiras nas calçadas, cartas escritas de próprio punho para amigos ou amantes, conversas acaloradas nos bancos dos ônibus entre aqueles que nunca tinham se encontrado antes, embora estas gotinhas de felicidade ainda possam existir e realmente aconteçam. A gente tem que se virar mesmo é com o que está disponível e ir tentando se afinar com formas de comunicação mais sutilizadas e rápidas, com o mundo virtual.
Da mesma forma, penso que as transformações que estão ocorrendo de forma tão rápida no planeta e que nos colocam num estado de alerta, com tantas catástrofes naturais, ao mesmo tempo também muito nos ensinam sobre responsabilidade com o meio ambiente e desapego.
Esta aparente distância entre as pessoas pode significar o estímulo para o aprendizado e a utilização de novas formas de relacionamento entre os homens, mais sutilizadas, eficazes e talvez mais profundas em que sejamos capazes de captar com um olhar mais abrangente, pelo entrelaçamento das auras ou pelo simples sentir o outro, muito mais do que as palavras e gestos explícitos de carinho poderiam transmitir.
Portanto, é imperioso ampliarmos os nossos sentidos indo em direção aos outros, sem distinção de quaisquer qualificações tão irrelevantes hoje, de raça, cor, credo, gênero, posição social, preferência sexual etc.
Não está longe o dia em que o amor será a regra e poderemos nos atirar com confiança, buscando nossos semelhantes para relações baseadas no respeito, liberdade, igualdade e fraternidade.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
A Cama Rosa
Conversando com uma amiga pelo telefone percebi sua voz diferente. E esta percepção permaneceu nos dias subsequentes. Mas eu não conseguia precisar qual era a diferença. Resolvi perguntar-lhe. Ela ficou surpresa. Não havia notado em si, a princípio, nenhuma diferença. Também as outras pessoas nada lhe haviam dito. Mas eu insisti por várias vezes e ela acabou notando que realmente estava diferente. Tentamos esclarecer qual teria sido a mudança. Mas era difícil captar, expressar com palavras. Finalmente entendi que ela estava mais segura, sua voz mostrava que se sentia mais plena. Ela concordou e buscou saber o que teria proporcionado isto. Avaliamos desde quando estava assim. Quando chegamos ao momento em que ocorrera a mudança, ela logo a associou a um acontecimento: foi depois que chegou a sua cama. Havia comprado, há alguns dias, uma cama nova. E eu quis então saber qual a relação. Por que uma cama nove trazia aquela nova forma de estar no mundo?
Aí começa uma história que me tocou profundamente e tento agora dividir com aqueles que tiverem sensibilidade para percebê-la na sua totalidade.
Minha amiga foi criada, até por volta dos 5 anos, pelos avós. Neste tempo foi respeitada, cuidada, percebida como pessoa em toda a sua expressão. Foram tempos bons de receber carinho, de moldar toda a existência que teria pela frente. Mas um dia seus pais a levaram de volta. Separou-se dos avós, indo para onde não queria. E para minorar a saudade de tudo, o avô presenteou-lhe com uma cama, para que quando fosse dormir pudesse lembrar-se deles, dos momentos vividos antes. E a cama tinha a guarda cor-de-rosa, com losangos de contornos brancos, em sintonia com o que a cama lhe trazia: o preenchimento do sentimento, o afago no coração, na sua sensibilidade. Assim desfrutou, por muito tempo, desta proximidade com os avós, como um tempo de amor, de cuidado, de alegria.
Um dia, voltando da escola, encontrou os pais, enlouquecidos que eram, na sala, costurando capas de napa de cor marrom ou verde-escuro em espumas, fazendo colchonetes que não compreendeu de imediato para que serviriam.
Então indagou-lhes o que era aquilo e como resposta ouviu que agora os filhos dormiriam nestes colchonetes, sem travesseiros, porque era muito saudável para a coluna vertebral. Espantada, queria saber de onde haviam tirado aquela ideia. Responderam que era assim na Índia. Estava decidido. E as camas, o que seria feito delas? As camas? Já estava tudo resolvido. Correu para o quarto, que encontrou vazio. No quintal, uma fogueira quase no fim, onde ardiam os restos de sua cama rosa. Desesperou-se. Correu até os pais e gritou sobre o porquê daquilo. Chorava, vendo em chamas os seus sonhos acalentadores, a sua proteção, o cuidado dos avós, a segurança da sua alma. De nada adiantava aquilo. Não entendiam. Eram loucos. Sofrimento. Desamparo. Endurecimento. Sensibilidade exposta. Carne viva.
O tempo passou. Ela e os irmãos passaram a dormir nos colchonetes que logo ficaram mais finos, trazendo o frio do corpo no contato com a umidade do solo e o frio da alma, sozinha. Os pais continuaram desfrutando de sua cama com os travesseiros macios.
Nunca mais teve uma cama só sua. Por várias razões isto não tinha acontecido. Sempre morara com outras pessoas e tinha sido necessário dividir a cama ou sempre trabalhara muito e, exausta, às vezes dormia em algum sofá. Nunca mais a cama rosa sonhada.
E agora, sem que tivesse a princípio percebido o significado do seu ato, havia encomendado uma cama. Era algo sem muita importância. Precisava montar seu quarto, buscou uma cama. Difícil achar uma que a agradasse. Não era rosa. Então encontrou uma em tons de marfim.
Um dia a cama chegou e, sem que se desse conta, reencontrou, ao nível da alma, o cuidado dos avós, o carinho, a proteção, os dias felizes da infância. Era agora outra, a voz denunciava. Era outra vez ela mesma, por isso mais segura se anunciava.
Eu me emocionei com esta vivência. Outros também se sentiriam tocados. Todos nós, certamente, temos, em algum lugar das nossas vidas, a nossa cama rosa, nosso lugar sagrado, o refúgio da alma.
Aí começa uma história que me tocou profundamente e tento agora dividir com aqueles que tiverem sensibilidade para percebê-la na sua totalidade.
Minha amiga foi criada, até por volta dos 5 anos, pelos avós. Neste tempo foi respeitada, cuidada, percebida como pessoa em toda a sua expressão. Foram tempos bons de receber carinho, de moldar toda a existência que teria pela frente. Mas um dia seus pais a levaram de volta. Separou-se dos avós, indo para onde não queria. E para minorar a saudade de tudo, o avô presenteou-lhe com uma cama, para que quando fosse dormir pudesse lembrar-se deles, dos momentos vividos antes. E a cama tinha a guarda cor-de-rosa, com losangos de contornos brancos, em sintonia com o que a cama lhe trazia: o preenchimento do sentimento, o afago no coração, na sua sensibilidade. Assim desfrutou, por muito tempo, desta proximidade com os avós, como um tempo de amor, de cuidado, de alegria.
Um dia, voltando da escola, encontrou os pais, enlouquecidos que eram, na sala, costurando capas de napa de cor marrom ou verde-escuro em espumas, fazendo colchonetes que não compreendeu de imediato para que serviriam.
Então indagou-lhes o que era aquilo e como resposta ouviu que agora os filhos dormiriam nestes colchonetes, sem travesseiros, porque era muito saudável para a coluna vertebral. Espantada, queria saber de onde haviam tirado aquela ideia. Responderam que era assim na Índia. Estava decidido. E as camas, o que seria feito delas? As camas? Já estava tudo resolvido. Correu para o quarto, que encontrou vazio. No quintal, uma fogueira quase no fim, onde ardiam os restos de sua cama rosa. Desesperou-se. Correu até os pais e gritou sobre o porquê daquilo. Chorava, vendo em chamas os seus sonhos acalentadores, a sua proteção, o cuidado dos avós, a segurança da sua alma. De nada adiantava aquilo. Não entendiam. Eram loucos. Sofrimento. Desamparo. Endurecimento. Sensibilidade exposta. Carne viva.
O tempo passou. Ela e os irmãos passaram a dormir nos colchonetes que logo ficaram mais finos, trazendo o frio do corpo no contato com a umidade do solo e o frio da alma, sozinha. Os pais continuaram desfrutando de sua cama com os travesseiros macios.
Nunca mais teve uma cama só sua. Por várias razões isto não tinha acontecido. Sempre morara com outras pessoas e tinha sido necessário dividir a cama ou sempre trabalhara muito e, exausta, às vezes dormia em algum sofá. Nunca mais a cama rosa sonhada.
E agora, sem que tivesse a princípio percebido o significado do seu ato, havia encomendado uma cama. Era algo sem muita importância. Precisava montar seu quarto, buscou uma cama. Difícil achar uma que a agradasse. Não era rosa. Então encontrou uma em tons de marfim.
Um dia a cama chegou e, sem que se desse conta, reencontrou, ao nível da alma, o cuidado dos avós, o carinho, a proteção, os dias felizes da infância. Era agora outra, a voz denunciava. Era outra vez ela mesma, por isso mais segura se anunciava.
Eu me emocionei com esta vivência. Outros também se sentiriam tocados. Todos nós, certamente, temos, em algum lugar das nossas vidas, a nossa cama rosa, nosso lugar sagrado, o refúgio da alma.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Imaginação - Sanaya Roman e Duane Packer
Sua imaginação tem um alcance maior do que você pensa. É o vínculo mais íntimo com a alma. Não é limitada por programas, crenças e medos do passado. A imaginação foi-lhe dada para você poder transcender o mundo físico. Ela lhe dá a capacidade de superar seus limites pessoais e descobrir seu maior potencial. Sua imaginação pode viajar para qualquer dimensão ou mundo. Pode criar caminhos futuros inimaginados para você e ajudá-lo a ver os possíveis resultados de várias opções.
terça-feira, 5 de maio de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Analogias
Para bom observador, tudo são analogias, similaridades...
Depois da perda, o dia seguinte é como o sol que nasce e estala de tão quente, após a chuva pesada.
O tempo de chuvas foi triste, sombrio, porém deu fluxo à vida, limpou as folhas velhas das árvores, arrasou, destruiu muitas coisas que já não tinham mais razão de ser. Esfriou, fez os corpos gélidos, contraídos em dor.
E agora, o sol que chega outra vez, traz vida nova aos corações e, da mesma forma que seca as gotas de chuva nas folhas mais vivas, resistentes que sobraram nas copas das árvores, enxuga as lágrimas das faces que, após os soluços de dor, ganham novo brilho e luz para esperar um novo dia.
Tudo na existência é manifestação da perfeição.
Os símbolos nos auxiliam a compreender onde se encontra o belo.
Depois da perda, o dia seguinte é como o sol que nasce e estala de tão quente, após a chuva pesada.
O tempo de chuvas foi triste, sombrio, porém deu fluxo à vida, limpou as folhas velhas das árvores, arrasou, destruiu muitas coisas que já não tinham mais razão de ser. Esfriou, fez os corpos gélidos, contraídos em dor.
E agora, o sol que chega outra vez, traz vida nova aos corações e, da mesma forma que seca as gotas de chuva nas folhas mais vivas, resistentes que sobraram nas copas das árvores, enxuga as lágrimas das faces que, após os soluços de dor, ganham novo brilho e luz para esperar um novo dia.
Tudo na existência é manifestação da perfeição.
Os símbolos nos auxiliam a compreender onde se encontra o belo.
domingo, 3 de maio de 2009
Lealdade
Não altere seu comportamento genuíno para contentar aos outros, cada um deve estar em paz consigo, ser leal apenas a si mesmo.
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