terça-feira, 25 de agosto de 2009

Defeitos - Clarice Lispector

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Minha Alma - Clarice Lispector

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

domingo, 23 de agosto de 2009

Corvos

Eles são corvos
Representantes do mal, ajudantes de bruxas
Seres ignóbeis, camuflados em suas capas pretas
Espreitam e sarcásticos arquitetam
Inéditas formas de corroer as almas do bem.

Eles são corvos
Trazem em si uma peçonha negra
Que se alastra ofensiva minando as energias
Fazem com que nada funcione e tenha nexo
E dispõem e comandam: que paradoxo!

Os corvos são negros
Negros como a noite da alma
Dos que, infelizmente, povoam o mesmo espaço
Enquanto clamam aos céus compaixão:
Que lhes cortem os pescoços duros e impiedosos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Versos de Orgulho - Florbela Espanca

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus !
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pão bendito,

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Felicidade e o Sofrimento

A felicidade disse para o sofrimento: quando é que você vai embora para que eu possa finalmente chegar?
Ele deu um passo para trás entre espantado e incrédulo e respondeu que somente gostaria de lembrar-lhe que nada é para sempre.
Mas parece que logo ela, a felicidade, era incapaz de compreender que para estar bem por toda a eternidade basta poder sentir-se feliz enquanto se é capaz de superar o sofrimento.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Conto de Fadas - Florbela Espanca

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras de uma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: “Era uma vez…”

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Curvando-me

Parece inútil a espera
Sei que não é
É que devo aprender a aceitar
Resguardar-me da devastação que o orgulho provoca
Devo curvar-me ainda uma vez
Rir do que me tornei e parecia não ser capaz de atingir
Em meio à estranheza
É que me reconheço ainda mais
A inutilidade só existe para os que não enxergam
Permito-me a expansão por mais que as paredes se espessem
Garanto a minha elevação apesar daquilo que me oprime
Tento buscar sentido no que me parece desprovido de qualquer finalidade

Estou acima porque vivo em espírito.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A Um Moribundo - Florbela Espanca

Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono…

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…

O que há depois? Depois?… O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!…

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Corpos da Alma

Corpos da Alma - Chris Griscom

Fala da dimensão espiritual e de como é urgente termos esta consciência de que somos espíritos em uma experiência material. Assegura que, como espíritos, estamos todos ligados. E, dessa forma, pensamentos e sentimentos de uns se entrelaçam com os de outros, desde que haja alguma sintonia.
Mostra que o corpo é a morada da alma que pode se comunicar além do mundo físico.
Apresenta a possibilidade de experienciar vidas passadas através da observação e focalização em partes do corpo físico e sua simbologia.
Propõe que façamos uma expansão de nossa consciência podendo abrir as portas para a dimensão espiritual, contribuindo para a entrada do planeta na oitava superior.
Excelente leitura. Recomendo da mesma autora: “O tempo é uma ilusão”, “Êxtase: a chave da dimensão espiritual”, “A fusão do feminino”, “Ego sem medo” e “Corpo sem idade”.

domingo, 16 de agosto de 2009

Da Minha Janela - Florbela Espanca

Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito, murmurado...
Voo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!

Sol! Ave a tombar, asas já feridas,
Batendo ainda num arfar pausado...
Ó meu doce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!

Meu verso de Samain cheio de graça,
Inda não és clarão já és luar
Um branco lilás que se desfaça!

Amor! Teu coração trago-o no peito...
Pulsa dentro de mim como este mar
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...