Solta no vento do fluir do tempo
Fui jogada pra bem longe do que eu era
Tão rápido que quando percebo
Já conto mais de cinqüenta primaveras.
Parece-me agora que foi ontem
O dia em que saí sozinha pela primeira vez
Misto de espanto, assombro, deslumbramento
O que senti no peito ao passar por vocês.
Vocês que descubro hoje ainda
(Partes perdidas do meu eu a desvendar)
Sempre que cismando ando a esmo
Permitindo-me refletir em cada olhar.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Amizade
Existe uma infindável coleção de textos sobre amizade. Muito tem sido escrito sobre esse tema. Fala-se bastante das diferenças dela e do amor, enaltecendo-se as suas vantagens em relação a ele. Talvez não haja nada mesmo a acrescentar.
Agora há o Dia do Amigo e, embora quem possua um possa contar com ele todos os dias, é uma lembrança que nos traz a vontade de tecer algumas considerações a este respeito.
Eu penso que amizade seja uma espécie de amor em que pessoas são atraídas umas pelas outras, se aproximam e a partir daí experimentam um sentimento bom que as faz querer permanecer perto e se, por alguma razão, precisam se afastar, sentem um vazio, incômodo ou pesar. Acontece de forma espontânea, sem querer e, de súbito, descobre-se que os laços já são fortes, às vezes indestrutíveis.
Amizades se consolidam em tempos diferentes, cada uma a seu jeito.
Há amigos que se descobrem depois de um olhar e se mantêm próximos por toda a vida.
Há os que iniciam a amizade por conta de coleguismo em escola, clube ou trabalho e, aos poucos, o sentimento se aprofunda e transforma-se.
Existem aqueles que se aproximam com a intenção de romance e percebem que a emoção que os une é pura amizade.
E há os que se tornam amantes, até se casam, vivem juntos por muito tempo e um belo dia vão cada qual para o seu lado, levando de lembrança uma amizade que perdurará apesar do rompimento do casamento.
Descobrem-se amigos, com freqüência, caso se passe por dificuldades, tendo-se então a grata surpresa de ser socorrido por alguém sem esperar.
Há amizades que compartilham no social, nascendo e se mantendo nos momentos de lazer e, por vezes, se restringindo a eles e nem por isso deixando de ser um sentimento profundo.
Algumas amizades emocionam demais porque, ao conhecermos determinada pessoa, temos uma espécie de déjà vu e sentimos como se ela sempre tivesse feito parte de nossa vida, é um reconhecimento. E nesta categoria há amigos que são esperados por alguém que desde há muito tempo intuiu que eles viriam para a sua vida, tendo conhecimento prévio, inclusive, do tipo físico, caráter e mesmo de circunstâncias futuras.
Acho que existem diferentes categorias de amigos, tantas quantas há de individualidades neste mundo.
Amigos não precisam ser sempre agradáveis, espera-se mesmo deles que não se privem de nos contrariar quando for preciso. Mas todo amigo espera do outro a sinceridade e a espontaneidade. Porque na amizade não deve haver cobranças. É um sentimento que deve fluir naturalmente. Mas é preciso esperar por um amigo para que a vida tenha mais graça; ser receptivo ao seu amor nos traz muitas dádivas.
Amigos, se são amigos, não carecem de palavras. Agem em prol do outro porque o percebem e compartilham suas necessidades. Também não fazem questão de agradecimento, pois fazer por um amigo já gratifica demais.
Amigos acolhem, orientam, compartilham, acodem, estimulam, esclarecem, corrigem e até penalizam se realmente podem ser chamados de amigos. Porque este encontro de almas é tão profundo que permite que façamos ao outro o que desejamos que ele faça por nós.
E amigos se compreendem a ponto de serem dispensáveis, totalmente, as manifestações de ciúme, já que não há insegurança, pois não há cobranças ou expectativas.
A amizade é como um lago tranquilo onde podemos olhar e vermos refletida a nossa própria imagem. Ventos de mudanças poderão distorcê-la, mas, quando cessam, outra vez podemos nos enxergar claramente.
Para mim, a palavra que expressa melhor a amizade é sintonia. Se há sintonia entre dois seres, haverá ressonância e pode-se fazer música. A amizade é uma música que faz dançar nossa alma.
Feliz Dia do Amigo para todos.
Que possamos sempre valorizar, compreender e respeitar o sentimento de amizade.
Agora há o Dia do Amigo e, embora quem possua um possa contar com ele todos os dias, é uma lembrança que nos traz a vontade de tecer algumas considerações a este respeito.
Eu penso que amizade seja uma espécie de amor em que pessoas são atraídas umas pelas outras, se aproximam e a partir daí experimentam um sentimento bom que as faz querer permanecer perto e se, por alguma razão, precisam se afastar, sentem um vazio, incômodo ou pesar. Acontece de forma espontânea, sem querer e, de súbito, descobre-se que os laços já são fortes, às vezes indestrutíveis.
Amizades se consolidam em tempos diferentes, cada uma a seu jeito.
Há amigos que se descobrem depois de um olhar e se mantêm próximos por toda a vida.
Há os que iniciam a amizade por conta de coleguismo em escola, clube ou trabalho e, aos poucos, o sentimento se aprofunda e transforma-se.
Existem aqueles que se aproximam com a intenção de romance e percebem que a emoção que os une é pura amizade.
E há os que se tornam amantes, até se casam, vivem juntos por muito tempo e um belo dia vão cada qual para o seu lado, levando de lembrança uma amizade que perdurará apesar do rompimento do casamento.
Descobrem-se amigos, com freqüência, caso se passe por dificuldades, tendo-se então a grata surpresa de ser socorrido por alguém sem esperar.
Há amizades que compartilham no social, nascendo e se mantendo nos momentos de lazer e, por vezes, se restringindo a eles e nem por isso deixando de ser um sentimento profundo.
Algumas amizades emocionam demais porque, ao conhecermos determinada pessoa, temos uma espécie de déjà vu e sentimos como se ela sempre tivesse feito parte de nossa vida, é um reconhecimento. E nesta categoria há amigos que são esperados por alguém que desde há muito tempo intuiu que eles viriam para a sua vida, tendo conhecimento prévio, inclusive, do tipo físico, caráter e mesmo de circunstâncias futuras.
Acho que existem diferentes categorias de amigos, tantas quantas há de individualidades neste mundo.
Amigos não precisam ser sempre agradáveis, espera-se mesmo deles que não se privem de nos contrariar quando for preciso. Mas todo amigo espera do outro a sinceridade e a espontaneidade. Porque na amizade não deve haver cobranças. É um sentimento que deve fluir naturalmente. Mas é preciso esperar por um amigo para que a vida tenha mais graça; ser receptivo ao seu amor nos traz muitas dádivas.
Amigos, se são amigos, não carecem de palavras. Agem em prol do outro porque o percebem e compartilham suas necessidades. Também não fazem questão de agradecimento, pois fazer por um amigo já gratifica demais.
Amigos acolhem, orientam, compartilham, acodem, estimulam, esclarecem, corrigem e até penalizam se realmente podem ser chamados de amigos. Porque este encontro de almas é tão profundo que permite que façamos ao outro o que desejamos que ele faça por nós.
E amigos se compreendem a ponto de serem dispensáveis, totalmente, as manifestações de ciúme, já que não há insegurança, pois não há cobranças ou expectativas.
A amizade é como um lago tranquilo onde podemos olhar e vermos refletida a nossa própria imagem. Ventos de mudanças poderão distorcê-la, mas, quando cessam, outra vez podemos nos enxergar claramente.
Para mim, a palavra que expressa melhor a amizade é sintonia. Se há sintonia entre dois seres, haverá ressonância e pode-se fazer música. A amizade é uma música que faz dançar nossa alma.
Feliz Dia do Amigo para todos.
Que possamos sempre valorizar, compreender e respeitar o sentimento de amizade.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Uma Amizade Sincera - Clarice Lispector
Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seus amores. Experimentávamos ficar calados — mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto — eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade — posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender porque os noivos se presenteiam, porque o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, porque a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura — seja dito de passagem, com vitória nossa — continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.
In “Felicidade Clandestina”.
domingo, 19 de julho de 2009
Tali, Meu Orvalho
Gotas de emoção caem do céu...
Chega a luz inundando de amor
Vidas que silenciosamente aguardavam,
Guardando no fundo de si a esperança.
Tali é seu nome escolhido
Por quem o trouxe a este mundo.
E aprova aquela que bem sabe
Que ele é o milagre da vida.
Orvalho que enfeita de luz
Gotinhas de vida nas flores,
Umidade dando cor e brilho
À vida de seus grandes amores.
Orvalho é o sentimento do mundo
Recolhido pelas plantas que recebem,
Se umedecem, ganham vida
E brilham de amor quando amanhece.
Chega a luz inundando de amor
Vidas que silenciosamente aguardavam,
Guardando no fundo de si a esperança.
Tali é seu nome escolhido
Por quem o trouxe a este mundo.
E aprova aquela que bem sabe
Que ele é o milagre da vida.
Orvalho que enfeita de luz
Gotinhas de vida nas flores,
Umidade dando cor e brilho
À vida de seus grandes amores.
Orvalho é o sentimento do mundo
Recolhido pelas plantas que recebem,
Se umedecem, ganham vida
E brilham de amor quando amanhece.
sábado, 18 de julho de 2009
Depressão
Depressão é estirar-se no sofá, virar para o canto e dormir para esquecer o problema que temos que resolver, quando o que deveríamos fazer seria usar as experiências do passado como um trampolim para ultrapassar as dificuldades, montando a estratégia de ação.
Cidade Maravilhosa
A umidade relativa do ar está alta. Isto se reflete no humor das pessoas, há uma leve turvação da consciência. Geralmente, nestas ocasiões, o trânsito fica caótico. Quem observa, reconhece uma certa loucura pairando no ar e os motoristas têm uma direção mais perigosa. Durante a madrugada, a chuva caiu pesada. O dia amanhece trazendo os problemas comuns da cidade: falta de energia elétrica, ruas alagadas, escuridão completa aumentando o perigo de assaltos para quem sai pra trabalhar muito cedo. Nos pontos de ônibus, as pessoas esperam agoniadas sabendo que vão se atrasar para o trabalho e serem descontadas nos seus já magros salários. Os ônibus passam lotados e raramente param nos pontos, pois a pressa é maior, já que sabem que vão ter que enfrentar mais problemas no trânsito causados pela chuva. O estresse neste início de dia é maior para todos.
E acontece o já esperado. Em Benfica, logo cedo, há um grave acidente envolvendo três coletivos. Um deles atravessou o sinal vermelho. A confusão é geral. Há mais de trinta feridos, alguns com gravidade.
Quando passo pelo local posso ver o estrago nos ônibus com as partes dianteiras muito danificadas e intuo que, como provavelmente vinham muito cheios, isto justifica o grande número de pessoas feridas. Quatro ambulâncias estão paradas e, no gramado de uma praça, alguns feridos estão deitados, tendo o atendimento de primeiros socorros. O trânsito fica ainda mais caótico. Os carros estão retornando e isso embola ainda mais o que já é normalmente congestionado.
Penso que aquelas pessoas saíram de suas casas para o trabalho e hoje a sorte não esteve do lado delas, não as salvou da direção perigosa dos motoristas, das más condições de manutenção dos veículos e das pistas, da pressão das empresas aumentando o estresse dos seus condutores. Os anjos da guarda não deram conta. Pudera! Nem eles estão aguentando o aumento de trabalho e exigências.
Chego ao trabalho e começa o barulho de dois helicópteros sobrevoando o morro da Mangueira onde a polícia está fazendo mais uma das suas ações perigosas para os moradores, na busca de bandidos que, há poucos dias, mataram um policial que tentou impedir um assalto. Também há helicópteros de reportagem que tentam documentar e transmitir em primeira mão o acidente, mais um fato triste que faz parte da rotina desta cidade que funciona, na maioria dos setores, no limite da irresponsabilidade.
O que será dessas pessoas? Alguém as ajudará ou as compensará por terem sido sacrificadas nas suas vidas, para que os verdadeiros responsáveis por tudo isso ganhassem um pouco mais à custa do desespero dos seus funcionários? Pensando bem, talvez a sorte não as tenha abandonado de todo. Nesse turbilhão de tantas dificuldades cotidianas, muitos estão estagnados, entristecidos, deprimidos e um acidente assim é, ao menos, um acontecimento, tira as pessoas da situação de “morte” em que estão. De repente, tudo pode mudar, mesmo que seja para pior.
Logo, as notícias estão em todos os telejornais e nas rádios. Todos já estão habituados a esse burburinho e comentar sobre a desgraça alheia acaba dando um “colorido” aos dias iguais.
Mas há ainda outro sinal da “loucura” urbana bem perto dali. No viaduto Ana Néri, os bombeiros trabalham tentando convencer um suicida a desistir da solução que buscava naquele momento, para sua vida de desventuras. Mas consta que está difícil.
Assim está esta cidade. Dizem que acontece em todo lugar. Vejam como, ultimamente, andam caindo aviões por toda parte, sem explicações convincentes e aceitáveis. É tudo muito estranho! Entretanto, como em muitos fatos tristes e lamentáveis que vêm acontecendo aqui no Rio de Janeiro, os fatores incompetência, irresponsabilidade, negligência e impunidade ficam gritantes, como no ocorrido com o avião em que foi detectado um FURO de 30cm na fuselagem quando já tinha decolado e teve que fazer um pouso de emergência, felizmente bem sucedido.
Aqui, quando saímos de casa, estamos expostos a tantas coisas absurdas, que voltar para casa ileso no fim do dia passou a ser motivo de comemoração e de dar graças aos céus.
Assim, esbarrar em moradores de rua dormindo enrolados em plásticos escuros e quase cair, sofrer assalto desses mesmos esquecidos pela sociedade, cruzar com viciados em crack e ser vítima de suas atitudes imprevisíveis, sofrer um atropelamento na calçada, estar envolvido num acidente de trânsito no transporte que utilizar, ser agredido na estação por seguranças da ferrovia às vistas de policial pago pelo Estado para sua defesa ao tentar entrar num trem, ficar pendurado na porta de um ônibus ao subir ou cair no asfalto ao descer quando o motorista dá partida no veículo ou ser arrastado e morrer sob a roda do ônibus sem ser visto pelo motorista, ser atingido por bala perdida (ou não) em algum assalto da hora ou dentro de comunidade invadida pela polícia à procura de algum bandido, ter um traumatismo craniano ao ser atingido por algo que despenca de algum prédio como um vasinho de flores, uma ferramenta usada por algum trabalhador numa construção onde não se usa tela protetora, algum suicida que resolveu abreviar esse desespero em que se transformou viver ou mesmo pedaços de alguma marquise em mau estado de conservação são alguns dos exemplos de ocorrências frequentes. Há outras possibilidades como ser atingido em fogo cruzado nas ruas entre bandidos e policiais ou perto de comunidades, entre facções criminosas, ter um filho arrastado por bandidos que roubaram seu carro ou ter seu carro metralhado por policiais ao ser confundido com o de bandidos (depois de perceberem o engano poderão desaparecer com o seu corpo).
E se conseguir escapar de tudo isso no fim do dia, ainda terá que conviver com as contas a pagar, o mau humor e estresse dos que ficam em casa, as condições de sobrevivência piores a cada dia e os serviços mais deficientes onde mora e, caso seja idoso ou criança, ainda por cima sofrer os possíveis maus tratos evidentes ou velados da família ou cuidadores.
Refletindo sobre todas essas coisas eu me pergunto: o suicida não seria o mais coerente?
E duvido ainda mais uma vez que eu esteja vivendo na CIDADE MARAVILHOSA!
E acontece o já esperado. Em Benfica, logo cedo, há um grave acidente envolvendo três coletivos. Um deles atravessou o sinal vermelho. A confusão é geral. Há mais de trinta feridos, alguns com gravidade.
Quando passo pelo local posso ver o estrago nos ônibus com as partes dianteiras muito danificadas e intuo que, como provavelmente vinham muito cheios, isto justifica o grande número de pessoas feridas. Quatro ambulâncias estão paradas e, no gramado de uma praça, alguns feridos estão deitados, tendo o atendimento de primeiros socorros. O trânsito fica ainda mais caótico. Os carros estão retornando e isso embola ainda mais o que já é normalmente congestionado.
Penso que aquelas pessoas saíram de suas casas para o trabalho e hoje a sorte não esteve do lado delas, não as salvou da direção perigosa dos motoristas, das más condições de manutenção dos veículos e das pistas, da pressão das empresas aumentando o estresse dos seus condutores. Os anjos da guarda não deram conta. Pudera! Nem eles estão aguentando o aumento de trabalho e exigências.
Chego ao trabalho e começa o barulho de dois helicópteros sobrevoando o morro da Mangueira onde a polícia está fazendo mais uma das suas ações perigosas para os moradores, na busca de bandidos que, há poucos dias, mataram um policial que tentou impedir um assalto. Também há helicópteros de reportagem que tentam documentar e transmitir em primeira mão o acidente, mais um fato triste que faz parte da rotina desta cidade que funciona, na maioria dos setores, no limite da irresponsabilidade.
O que será dessas pessoas? Alguém as ajudará ou as compensará por terem sido sacrificadas nas suas vidas, para que os verdadeiros responsáveis por tudo isso ganhassem um pouco mais à custa do desespero dos seus funcionários? Pensando bem, talvez a sorte não as tenha abandonado de todo. Nesse turbilhão de tantas dificuldades cotidianas, muitos estão estagnados, entristecidos, deprimidos e um acidente assim é, ao menos, um acontecimento, tira as pessoas da situação de “morte” em que estão. De repente, tudo pode mudar, mesmo que seja para pior.
Logo, as notícias estão em todos os telejornais e nas rádios. Todos já estão habituados a esse burburinho e comentar sobre a desgraça alheia acaba dando um “colorido” aos dias iguais.
Mas há ainda outro sinal da “loucura” urbana bem perto dali. No viaduto Ana Néri, os bombeiros trabalham tentando convencer um suicida a desistir da solução que buscava naquele momento, para sua vida de desventuras. Mas consta que está difícil.
Assim está esta cidade. Dizem que acontece em todo lugar. Vejam como, ultimamente, andam caindo aviões por toda parte, sem explicações convincentes e aceitáveis. É tudo muito estranho! Entretanto, como em muitos fatos tristes e lamentáveis que vêm acontecendo aqui no Rio de Janeiro, os fatores incompetência, irresponsabilidade, negligência e impunidade ficam gritantes, como no ocorrido com o avião em que foi detectado um FURO de 30cm na fuselagem quando já tinha decolado e teve que fazer um pouso de emergência, felizmente bem sucedido.
Aqui, quando saímos de casa, estamos expostos a tantas coisas absurdas, que voltar para casa ileso no fim do dia passou a ser motivo de comemoração e de dar graças aos céus.
Assim, esbarrar em moradores de rua dormindo enrolados em plásticos escuros e quase cair, sofrer assalto desses mesmos esquecidos pela sociedade, cruzar com viciados em crack e ser vítima de suas atitudes imprevisíveis, sofrer um atropelamento na calçada, estar envolvido num acidente de trânsito no transporte que utilizar, ser agredido na estação por seguranças da ferrovia às vistas de policial pago pelo Estado para sua defesa ao tentar entrar num trem, ficar pendurado na porta de um ônibus ao subir ou cair no asfalto ao descer quando o motorista dá partida no veículo ou ser arrastado e morrer sob a roda do ônibus sem ser visto pelo motorista, ser atingido por bala perdida (ou não) em algum assalto da hora ou dentro de comunidade invadida pela polícia à procura de algum bandido, ter um traumatismo craniano ao ser atingido por algo que despenca de algum prédio como um vasinho de flores, uma ferramenta usada por algum trabalhador numa construção onde não se usa tela protetora, algum suicida que resolveu abreviar esse desespero em que se transformou viver ou mesmo pedaços de alguma marquise em mau estado de conservação são alguns dos exemplos de ocorrências frequentes. Há outras possibilidades como ser atingido em fogo cruzado nas ruas entre bandidos e policiais ou perto de comunidades, entre facções criminosas, ter um filho arrastado por bandidos que roubaram seu carro ou ter seu carro metralhado por policiais ao ser confundido com o de bandidos (depois de perceberem o engano poderão desaparecer com o seu corpo).
E se conseguir escapar de tudo isso no fim do dia, ainda terá que conviver com as contas a pagar, o mau humor e estresse dos que ficam em casa, as condições de sobrevivência piores a cada dia e os serviços mais deficientes onde mora e, caso seja idoso ou criança, ainda por cima sofrer os possíveis maus tratos evidentes ou velados da família ou cuidadores.
Refletindo sobre todas essas coisas eu me pergunto: o suicida não seria o mais coerente?
E duvido ainda mais uma vez que eu esteja vivendo na CIDADE MARAVILHOSA!
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Estagnação Opressora
As paredes que me cercam começam a ter movimento. Devagar se aproximam e do centro onde estou me parecem cada vez mais ameaçadoras, me oprimindo o peito e impedindo a luz cada vez mais. Não há como fugir. Não existe um meio de fazer frente a elas. Não há como ultrapassá-las. Do centro deste lugar inóspito em que se tornou minha vida, apenas conto os dias enquanto espero o momento final, o encontro com a paz depois de sucumbir ao peso do imutável.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Hoje
O momento atual é como cair em areia movediça. Quanto mais tento sair, mais afundo e sou coberta pela lama. São tempos cinza, sem perfume, nem mesmo ar. Não há melodia nas horas que escorrem num compasso que se mantem o mesmo, nada se cria, apenas é possível repetir, repetir, repetir. Meus olhos miram, mas não veem. A paisagem interna é de seca. Não há emoção. E sem ela, só resta ceder e afundar para sempre.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Tertúlia Virtual - O Homem no Lixo é Lixo
Numa manhã fria de um inverno mais rigoroso na Cidade Maravilhosa minha visão é atraída por uma cena patética enquanto passo de ônibus por uma área residencial pobre que retrata perfeitamente este momento no Rio de Janeiro, no mundo e dentro de cada um de nós.
O negro do homem contrasta com as sacolas plásticas brancas “indestrutíveis”: é um morador de rua que se deitou sobre um monte de lixo deixado ao lado de uma caçamba da Comlurb. Aquilo me choca e, aos poucos, a outros passageiros - que ousam enxergar fora, além da sua realidade incômoda: um coletivo lotado, em que pessoas semi-acordadas se espremem para ocupar um espaço que não existe para todos.
Não há espaço para todos e este homem sabe disso.
Sua consciência o conduziu para onde de fato estava: no lixo. Ele é o lixo da sociedade que reduz o homem.
Quantos de nós, em momentos subsequentes, em dias que se repetem, em semanas intermináveis, em meses e anos que não nos levam além da certeza de que, a cada dia, a luta para sobreviver será maior e a possibilidade de exclusão aumentará, já tiveram estes insights... Quantas vezes já nos sentimos no lixo? Nós somos o lixo a cada vez que permitimos que o homem seja visto assim, feito assim, degradado.
Ah! Como incomoda ver pelas ruas, em número cada vez maior, meninos que saem de casa expulsos pelos maus tratos e abusos e passam a viver ao relento, dormindo no chão sujo, protegidos apenas na parte superior do corpo pelas camisas ralas, imundas, que esticam e prendem até os joelhos para proteger o sexo, num frio de desproteção emocional muito maior do que o do inverno! Como nos causa repugnância quando sobem pela porta de trás dos ônibus moradores de rua drogados, sujos, fedidos, tuberculosos, tossindo sua dor na nossa cara, poluindo o já rarefeito ar dos veículos cheios de gente que volta do trabalho exausta e consome o resto de energia agarrando-se como podem aos apoios dos microônibus que solavancam sem amortecedores e com molas gastas, guiados por condutores explorados, insanos, que extravasam a raiva dos donos das empresas em demonstrações irresponsáveis de direção perigosa!
O que somos senão lixos quando, todos os dias, nos permitimos ser tratados desta forma? Que menos-valia é esta que faz com que permaneçamos impassíveis, sentados em nossos carros, quando crianças molambentas ou deficientes tentam nos vender balas ou fazem acrobacias diante de uma platéia que finge não ver, em troca de trocados que geralmente não vêm? E, nas lanchonetes, quando você, por não ter dinheiro para almoçar, pede um sanduíche barato com refresco e, na primeira dentada, tem seu braço puxado pelo moleque que, com expressão de choro e abandono, pede que lhe pague um lanche porque ainda não tomou café? Você pode ter uma boa refeição ou tem seu estômago revirado numa ânsia de vomitar toda a sua indignação com este estado de coisas, sobretudo porque é extorquido, sem opção, por impostos abusivos que equiparam, nas alíquotas cobradas, seu minguado salário aos ganhos estratosféricos de privilegiados funcionários públicos de alto escalão?
E então, refletindo sobre tantos absurdos que cada um de nós enxerga em sua área de atuação nesta sociedade todos os dias, de tantos anos que já aconteceram e na expectativa de tantos outros que virão, eu me pergunto: a atitude deste homem que se deitou hoje no lixo não foi mesmo um alerta formidável? Porque, simplesmente estando onde estava, sendo o que de fato era, nos jogou, a todos nós que o vimos de súbito, na consciência de que cada um de nós também é ele, a despeito das artimanhas que inventamos e dos disfarces que assumimos para nós mesmos quando negamos, em nossa vida, a sujeira, a dor, a pobreza, a velhice, a nossa sombra, a própria morte. Quando aceitamos a corrupção, os desmandos, a impunidade, as contradições, as safadezas, os descaramentos do poder reinante, somos o lixo que precisa urgentemente ser reciclado. É necessário conscientizar que não é possível deixar fazer aos outros, nossos semelhantes, o que não admitimos para nós.
O negro do homem contrasta com as sacolas plásticas brancas “indestrutíveis”: é um morador de rua que se deitou sobre um monte de lixo deixado ao lado de uma caçamba da Comlurb. Aquilo me choca e, aos poucos, a outros passageiros - que ousam enxergar fora, além da sua realidade incômoda: um coletivo lotado, em que pessoas semi-acordadas se espremem para ocupar um espaço que não existe para todos.
Não há espaço para todos e este homem sabe disso.
Sua consciência o conduziu para onde de fato estava: no lixo. Ele é o lixo da sociedade que reduz o homem.
Quantos de nós, em momentos subsequentes, em dias que se repetem, em semanas intermináveis, em meses e anos que não nos levam além da certeza de que, a cada dia, a luta para sobreviver será maior e a possibilidade de exclusão aumentará, já tiveram estes insights... Quantas vezes já nos sentimos no lixo? Nós somos o lixo a cada vez que permitimos que o homem seja visto assim, feito assim, degradado.
Ah! Como incomoda ver pelas ruas, em número cada vez maior, meninos que saem de casa expulsos pelos maus tratos e abusos e passam a viver ao relento, dormindo no chão sujo, protegidos apenas na parte superior do corpo pelas camisas ralas, imundas, que esticam e prendem até os joelhos para proteger o sexo, num frio de desproteção emocional muito maior do que o do inverno! Como nos causa repugnância quando sobem pela porta de trás dos ônibus moradores de rua drogados, sujos, fedidos, tuberculosos, tossindo sua dor na nossa cara, poluindo o já rarefeito ar dos veículos cheios de gente que volta do trabalho exausta e consome o resto de energia agarrando-se como podem aos apoios dos microônibus que solavancam sem amortecedores e com molas gastas, guiados por condutores explorados, insanos, que extravasam a raiva dos donos das empresas em demonstrações irresponsáveis de direção perigosa!
O que somos senão lixos quando, todos os dias, nos permitimos ser tratados desta forma? Que menos-valia é esta que faz com que permaneçamos impassíveis, sentados em nossos carros, quando crianças molambentas ou deficientes tentam nos vender balas ou fazem acrobacias diante de uma platéia que finge não ver, em troca de trocados que geralmente não vêm? E, nas lanchonetes, quando você, por não ter dinheiro para almoçar, pede um sanduíche barato com refresco e, na primeira dentada, tem seu braço puxado pelo moleque que, com expressão de choro e abandono, pede que lhe pague um lanche porque ainda não tomou café? Você pode ter uma boa refeição ou tem seu estômago revirado numa ânsia de vomitar toda a sua indignação com este estado de coisas, sobretudo porque é extorquido, sem opção, por impostos abusivos que equiparam, nas alíquotas cobradas, seu minguado salário aos ganhos estratosféricos de privilegiados funcionários públicos de alto escalão?
E então, refletindo sobre tantos absurdos que cada um de nós enxerga em sua área de atuação nesta sociedade todos os dias, de tantos anos que já aconteceram e na expectativa de tantos outros que virão, eu me pergunto: a atitude deste homem que se deitou hoje no lixo não foi mesmo um alerta formidável? Porque, simplesmente estando onde estava, sendo o que de fato era, nos jogou, a todos nós que o vimos de súbito, na consciência de que cada um de nós também é ele, a despeito das artimanhas que inventamos e dos disfarces que assumimos para nós mesmos quando negamos, em nossa vida, a sujeira, a dor, a pobreza, a velhice, a nossa sombra, a própria morte. Quando aceitamos a corrupção, os desmandos, a impunidade, as contradições, as safadezas, os descaramentos do poder reinante, somos o lixo que precisa urgentemente ser reciclado. É necessário conscientizar que não é possível deixar fazer aos outros, nossos semelhantes, o que não admitimos para nós.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Pipas
Sonhos de papel erguem-se...
Coloridos, esvoaçam a esmo,
Buscam o alto
Atados pelas linhas imaginárias
Do desejo dos meninos
Tremulam, bailam, voam...
Desenham formas audaciosas;
Mergulham na profundeza dos ares,
Misturam-se a outros no céu,
Competem pelo espaço livre
Pintam de cores vivas as tardes,
Motivam a algazarra dos moleques,
Permitem o exercício da liberdade,
Incitam às exibidas disputas
E, por fim, testemunham de cima avoadas frustrações.
Coloridos, esvoaçam a esmo,
Buscam o alto
Atados pelas linhas imaginárias
Do desejo dos meninos
Tremulam, bailam, voam...
Desenham formas audaciosas;
Mergulham na profundeza dos ares,
Misturam-se a outros no céu,
Competem pelo espaço livre
Pintam de cores vivas as tardes,
Motivam a algazarra dos moleques,
Permitem o exercício da liberdade,
Incitam às exibidas disputas
E, por fim, testemunham de cima avoadas frustrações.
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