sábado, 23 de maio de 2009

Outro Olhar

Há dias em que sinto grande necessidade de olhar. Olhar para as pessoas, para as suas ações, para a sua passividade, para o que deixam fluir.
Nessas horas eu me alimento do que vejo. As imagens impregnam o meu corpo emocional e os olhos que vêem são olhos de compreensão, que estabelecem a ligação com o amor universal.
Vejo o que está por trás das pessoas, as manifestações do seu inconsciente e elas se fundem com o que também está fluindo de mim.
Preciso tantas vezes me reabastecer desse contato especial com os humanos.
Isso me dá grande alegria. Eu me renovo, a minha energia flui melhor, livre dos bloqueios das relações comumente estabelecidas no dia a dia.

A Vidente - Clarice Lispector

A cozinheira é Jandira. Mas esta é forte. Tão forte que é vidente. Uma de minhas irmãs estava visitando-me. Jandira entrou na sala, olhou sério para ela e subitamnte disse: “A viagem que a senhora pretende fazer vai-se realizar, e a senhora está atravessando um período muito feliz na vida.” E saiu da sala. Minha irmã olhou para mim, espantada. Um pouco encabulada, fiz um gesto com as mãos que significava que eu nada podia fazer, ao mesmo tempo em que explicava: “É que ela é vidente.” Minha irmã respondeu tranquila: “Bom, cada um tem a empregada que merece.”

O Poder da Imaginação

Imaginar é:
Sonhar e acreditar
Pra realizar.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Trem das Cores - Caetano Veloso

A franja na encosta cor de laranja
Capim rosa chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar

O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa

Os átomos todos dançam
Madruga reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão

O oliva da nuvem chumbo
Ficando pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã

As casas tão verde e rosa
Que vão passando
Ao nos ver passar
Os dois lados da janela

E aquela num tom de azul
Quase inexistente,
Azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar

Teu cabelo preto explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí

E aqui trem das cores
Sábios projetos:
Tocar na central
E o céu de um azul celeste celestial


O Meu Trem das Cores

Ao ouvir esta música com seus versos de tão linda inspiração, não posso deixar de me transportar para este trem também.
Agora eu me sinto como este compositor que passa num trem. E está vivo, tão vivo como tudo que apreende com os olhos e com o coração. Do trem ele observa a natureza, as pessoas, o movimento do dia acordando, as pessoas na estrada. Ele próprio vai sendo acordado pelo que vê e o toca de forma tão profunda. E as cores são o portal que permite que ele, de repente, mergulhe naquela outra realidade do que observa. Ele se deixa impregnar pelo que vê. É atravessado pelas imagens e cada uma consegue deflagrar no seu âmago uma explosão de belezas que ele decodifica em versos tão lindos.
Porque os versos estão vivos. Eu mesma sinto o cheiro da manhã, o frio da névoa úmida e o calor do seu peito que, certamente, ama aqueles lábios cor de açaí. Porque aquele homem que observa é tão vivo que só pode mesmo amar a vida e alguém em especial.
O trem passa. As cores vivem. Ele observa e é observado. Nós também, ao passarmos pela vida, olhamos e somos vistos por ela, os dois lados da janela. O aqui agora é assim mesmo. É calmo e é dependente de total atenção, para que não se perca nada. E, não mais que de repente, algum pequeno detalhe, um certo tom de azul inexistente, traz um déjà vu, uma memória qualquer é acessada e entramos em outra realidade que já vivemos anteriormente. E isto é um bálsamo. Adoro esta música porque, para mim, viajar é meditar. É olhar pela janela do trem ou do ônibus, atravessar a porta do tempo e banhar a minha alma em águas já antes visitadas.
E esta música é tão incrível que mostra como uns instantes de desprendimento podem ser tão revigorantes para nós. Assim, no final da música ele fala em sábios projetos, tocar na Central. Ou seja, ele captou a grande delicadeza das coisas simples e pensou em levar sua arte para um lugar que nos dias comuns convive com a dureza, a insipidez da rotina, mas que, ao mesmo tempo, examinada por alguém que transborda sensibilidade, pode oferecer frutos tão doces e suculentos (vide a seda azul do papel que envolve a maçã).
E ele é transformado pelo que vê com os olhos do coração e insere esse quantum de amor nos seus projetos que agora são projetos para o outro, o semelhante.
Eu penso que melhorar o mundo é conectar com o interior, receber o amor que transborda e então dirigir esse amor para o outro, para o mundo.

Atitude

A vida é o que fazemos dela. A cada dia descobrir a inteireza do que vivemos deveria nos fazer pensar no que poderíamos ser, se nos permitíssimos, se nos déssemos a chance de sermos quem realmente somos.
A beleza está dentro de todos nós. Não importa em que condições vivemos, não importa o que já sofremos, o que nos fez chorar e endurecer. A possibilidade do bom está em cada um. A harmonia, o sossego, o belo estão bem aqui dentro de nós. É só contactar, é só abrir os canais.
Como acordamos? Será que olhamos por um só instante a pessoa que está ao nosso lado? Será que a tocamos, encostamos nosso corpo no dela? Pense que essa pessoa dormiu com você, dividiu talvez o mesmo sonho. Quem sabe? E ela está ali. Ainda dorme. Está relaxada, a pele quente e gostosa. Você já percebeu isto?
Sim, eu sei que é preciso iniciar o dia, sei dos compromissos, do que teima em puxá-lo para fora da cama. Mas fique mais um pouco, por mais um tempinho só. Viva esse momento que é seu, por direito. Comece o dia com a aproximação do outro. Puxe para você a pessoa com quem divide a vida. Dirija a ela uma vibração de amor, uma doçura, uma carícia. Mesmo se vocês não estiverem muito bem nessa fase. Você quer estar bem, é isso que seu coração pede, os problemas podem ser resolvidos pelo carinho, pelo amor; se abra para o outro, escute o seu coração, deixe a cabeça de lado, o orgulho, jogue fora as mágoas, derrube as cercas que ainda o aprisionam.
E se voce não divide a cama com ninguém, aproveite a delícia que é o contato consigo mesmo. Não pule logo para fora da cama. Você já espreguiçou? Já se espichou como um gato? Já tentou se expandir pra vida? Esse movimento pode fazer uma grande diferença pro seu dia. Os tempos de agora pedem expansão. Vá para os outros, procure as pessoas num relacionamento de verdade, inteiro, espontâneo, o movimento das crianças. No outro está sua cura, está você. Descubra no outro toda a beleza que também existe em você. Tenha paciência com você, desculpe suas imperfeições, seus exageros, suas omissões. Mas se dê oportunidade de ser melhor, de elevar seus padrões, de construir para sua vida a única coisa que você vai poder levar quando se despedir dela: construa extensões do amor que existe em você. Deixe o amor se expandir para fora de você.
Esse amor vai tocar o amor do outro, de todos que estiverem perto de você e longe também, porque o amor é poderoso, é a única proteção real que você pode ter. O amor vai dissolver seus medos, vai trazer para você belos acontecimentos hoje. Suas oportunidades serão outras se você se soltar para a vida, se permitir emanar de você mesmo esta coisa divina que é o amor.
É você que faz sua vida, seu novo dia, seu futuro. O que faz e o que deixa de fazer neste momento vai plasmar seu futuro. Não tire de você a responsabilidade por tudo que lhe acontece. Porque é assim mesmo. Isso não é ruim, não é injusto, isto é só uma possibilidade. Você tem escolhas, você pode. Pode tudo, ainda que pareça absurdo, você tem esse poder. E esse poder é, muitas vezes, não ter poder. É deixar-se levar. Mas cultive em você esse hábito de perceber a cada momento que você pode mudar a sua vida e a dos que estão ao seu redor, que você é essa sociedade que lhe parece tão diferenciada de você. Você é essa realidade que você vive. E o que você deixa sair de você cria a atmosfera que você respira, atrai o que você permite, o envolve em vibrações que você mesmo envia. Então resgate o contato com o divino que está em você. Assuma todo o seu poder. Melhore seus dias e seus relacionamentos. Fique mais inteiro, se expanda, melhore essa vida, esse planeta, atraia para você tudo que você puder deixar sair de bom de você mesmo. É assim que funciona. Experimente.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Meditação da Água

Lentamente escorrego para fora da cama, meio trôpega ainda, meio cega, um tanto atônita, com o peito carregado ainda pelas emoções da noite que passou e me dirijo ao banheiro.
Ainda sem enxergar, molho as mãos na água fria e banho o rosto num movimento de acariciar a pele, acordando-a devagarzinho. Encho a boca de água, banho o nariz, os olhos e vou percebendo melhor o início do dia. Seco o rosto, as mãos e ando até a cozinha onde escancaro a janela e páro ao lado do filtro de barro.
É aqui que se inicia o ritual de uma meditação. Nesse momento, eu me confundo com a manhã e vou acordando como ela. Eu com a água, ela com o sol.
Olho para fora da janela e me deslumbro com o dia que ainda não é de todo. O céu ainda é chumbo. A cidade dorme. Olho por cima dos prédios. Estou bem no alto. Vejo a copa das árvores, os edifícios ao longe, a rua ainda deserta.
A janela aberta me permite ouvir o som de fora. Ainda não há os sons de costume, aqueles que ouvimos diariamente, a partir de certa hora: sons de buzinas, de motores de carros, ônibus, sons de correria, de loucura, de gritos que libertam por momentos curtos, almas imprensadas numa cidade já quase desumana.
Agora os sons são tranquilizadores. Escuto o vento, o farfalhar das folhas das árvores, algum tímido passarinho que já acordou, um cachorro sonolento que tenta dizer aos donos que já está de pé. E ouço os galos cantarem. Não sei bem onde ainda existem galos nessa cidade. Mas o fato é que eles me acompanham. Onde quer que eu vá sempre escuto um galo cantar na manhã, me trazendo a infância de volta todos os dias, a me lembrar que ainda sou quem sempre fui, que minha pureza e espontaneidade, minha emotividade estão guardadas em mim e, a qualquer instante, podem ser acordadas por esses galos do alvorecer.
Encho o primeiro copo de água, limpinha, fresca, do filtro de barro. Olho a água como se olhasse o mar. Chego a sentir o cheiro de maresia e o frescor da brisa que sopra perto do mar. É o primeiro copo dos seis que vou bebendo devagar todas as manhãs, inaugurando meu dia com esse contato silencioso com o mundo, um contato sem palavras, só de sensações, de captar com todos os cinco sentidos a vida que está em volta. Assim, vou me acordando e despertando outros sentidos. A água enche minha boca e escorre para dentro. Isso mexe com a respiração. Respiro o dia, resgato todos os dias o bebê que respira pela primeira vez, a descoberta do mundo. Escuto um passarinho, o som limpo. Vejo uma janela se abrindo, alguém se levanta e começa a viver o hoje.
Bebo outro copo e o fluxo das águas em mim me faz perceber um movimento do meu tubo digestivo, que vai acordando. Percebo barulhos internos enquanto olho o céu que agora já está sendo rasgado pelo sol. Já não é chumbo, já há claridade. Um sino soa ao longe. Bebo mais água. Alguns músculos se soltam nas costas. Os olhos estão mais abertos, já vejo com nitidez o mundo lá fora. Penso na noite de ontem. Sinto a felicidade de estar viva, de amar, de ter vindo até a janela com minhas próprias pernas. A água que molha meus tecidos e abastece meus órgãos, limpa as vísceras, traz renovação, me acorda, me purifica. Os pensamentos são claros. A cada copo que bebo sinto que me abro pra vida como a noite que vai-se afastando aos poucos, permitindo que o dia chegue com o sol. E o céu vai-se abrindo. Os passarinhos voam. Escuto o barulho do meu intestino espreguiçando lá dentro. Já estou no quinto copo. E quero mais água. Sinto as ondas chegando para mim, por dentro, mas é como se estivesse no mar. As ondas me cobrem, a água traz o fluxo da vida.
A cidade vai acordando, eu recebo mais esse dia, feliz por estar comigo, por me perceber inteira, por sentir que amo, que sou amada, que dormi bem, que continuei o sonho do fim da noite e vou levá-lo comigo no coração, nesse dia que já nasceu.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Dúvida

Sublime ignorância: quando dei por mim estava a um passo do ridículo. O que fazer quando a emoção nos embota a razão a ponto de suprimir todo o conhecimento prévio?

Atitude

Nos dias de hoje, se souberes lidar com a raiva e a tristeza em qualquer momento e se fores sempre paciente, valerás por cem homens.

Comida do Terceiro Milênio

Luz alimenta.
Nem só de matéria
O corpo vive.