segunda-feira, 4 de maio de 2009

Analogias

Para bom observador, tudo são analogias, similaridades...
Depois da perda, o dia seguinte é como o sol que nasce e estala de tão quente, após a chuva pesada.
O tempo de chuvas foi triste, sombrio, porém deu fluxo à vida, limpou as folhas velhas das árvores, arrasou, destruiu muitas coisas que já não tinham mais razão de ser. Esfriou, fez os corpos gélidos, contraídos em dor.
E agora, o sol que chega outra vez, traz vida nova aos corações e, da mesma forma que seca as gotas de chuva nas folhas mais vivas, resistentes que sobraram nas copas das árvores, enxuga as lágrimas das faces que, após os soluços de dor, ganham novo brilho e luz para esperar um novo dia.
Tudo na existência é manifestação da perfeição.
Os símbolos nos auxiliam a compreender onde se encontra o belo.

domingo, 3 de maio de 2009

Lealdade

Não altere seu comportamento genuíno para contentar aos outros, cada um deve estar em paz consigo, ser leal apenas a si mesmo.

Revivência

Chão de paralelepípedos unidos por grama verdinha no pátio do lugar onde trabalho. Mangas maduras caídas, manchando o chão meio coberto de folhas secas, deixando no ar o odor adocicado da infância, quando existia um quintal com a copa da frondosa árvore, a mangueira da casa do vizinho, debruçada para além do muro.
Imediatamente estou outra vez lá. Experimento a segurança e o conforto do cheiro de manga pisada, caída do pé, ao mesmo tempo em que o corpo adulto se arrepia de medo, enquanto a menina sente nos cabelos e no rosto, a mesma ventania que sacudiu os ramos da árvore e abalou uma tarde calma de fim de primavera.
Foi assim que transpus, no mesmo instante, a ponte para o passado, expressada pelo conjunto de lembranças impregnadas de emoção e ancoradas nas impressões dos sentidos.
A partir de então, por todo o dia eu estaria habitada por recordações do tempo de menina naquele quintal e repassaria todos os acontecimentos que me viessem à mente, agora com a perspectiva da mulher, domando as emoções ainda deslocadas, podendo compreender e reescrever essa parte da história da minha vida.

sábado, 2 de maio de 2009

Da Dificuldade de Enxergar o Mal

Vivemos num mundo de polaridades. Mas, porque é tão difícil para alguns de nós enxergar a escuridão? É necessário estar aberto para a possibilidade do mal, para poder lidar com ele e proteger suas vítimas que não se restringem aos que sofrem, incluindo também o agressor. É rotina nos pronto-socorros, lesões em crianças e idosos, decorrentes de violência ou negligência por parte de pais, familiares e cuidadores.
Crianças e idosos sofrem agressões e lesões decorrentes da falta de proteção por parte de seus responsáveis. Desatenção, esquecimentos, verdadeiras ciladas e armadilhas representadas por situações e utensílios e móveis existentes na própria residência ou fora dela, custam muito caro para quem em determinada época da vida precisa de proteção.
E cabe aos profissionais de saúde buscarem informação, quando na sua vivência não encontram experiências desse tipo para ajudarem no diagnóstico. Há quem se comporte como se vivesse na ilha da fantasia e deixa passar, atribuindo ao acaso ou acidente, lesões corporais em crianças e idosos por violência explícita ou abuso sexual, por não terem tido contato no meio em que foram criados, com estas práticas abomináveis. Precisamos admitir que como humanos (Irrc!), todos nós e qualquer um de nós é capaz de qualquer coisa, desde que haja condições propícias.
Admitindo que a maldade faz parte de nós, estaremos nos protegendo mutuamente: vítimas e agressores.

Sensações (Misturas e Cores)

Misturar. Esta ideia me veio de súbito. Parte de um com parte do outro: coisa nova que surge. Comunhão. Talvez. Tão clara em mim esta sensação hoje.
Fazemos parte de um todo que depende de cada um de nós. A vibração do mundo que é formada pelas emanações de cada um de nós. A responsabilidade que há nisto, em cada ato nosso, em cada pensamento. Olhar para os outros com o amor e a consideração que devemos dispensar a nós mesmos. Gosto de misturas, do resultado das combinações em tudo. Mas mistura de partes que têm algo em comum, que podem compartilhar, que são abertas para permitir entrar no outro e serem invadidas, diferente de água e óleo.
Óleo me lembra tela que me traz tintas. Vejo a tela branca e as tintas coloridas que vão sendo colocadas no branco, que dançam levadas pelo pincel e se juntam às cores de outras e explodem em tons novos, multicoloridos. É vida nova despontando.
Os cheiros que se combinam, das peles que se tocam e se modificam pela delícia do contato, exalando perfumes que se misturam e impressionam olfatos de novas formas tão particulares, com mudanças às vezes tão sutis, mas que marcam e tocam uma profundidade tão imensa e especial.
Meus sentidos se assanham com as cores e penso que assim é com todo mundo: primeiro os olhos, mas as coisas têm cheiro e gosto e textura também. Um prato cheio de cores é recebido pela língua de forma totalmente diversa da comida monocromática. Gosto de ter todas as cores que puder no mesmo prato e ir provando cada uma delas, sentindo a temperatura da cor, o gosto da comida, me sentindo arrepiar todas pelas cores ácidas ou picantes e me deixando amansar pelas cores doces. E sentir, ao mesmo tempo, mais de uma cor na mesma parte da língua é especial. É certeza de novo sabor, nova vida que se percebe, é mais uma parte de mim que se aguça.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Traição: A Busca Equivocada pela Transcendência no Amor

O que nos levaria, num nível mais profundo, a trair, mesmo nos relacionamentos em que há um amor inquestionável?
Porque mesmo em casamentos, com e sem aspas, em que há harmonia, complementariedade, paixão, amizade, companheirismo e outros ingredientes indicadores de profundidade em relacionamento amoroso, ainda assim, o fantasma da traição insiste em rondar?
Ainda que a traição não se concretize, é inegável que alguma vez já se fez presente nas fantasias, mesmo daquele parceiro mais convicto, que tem a certeza de ter encontrado a sua alma gêmea e estar feliz e realizado com ela.
A Astrologia nos explica que buscamos no outro aquilo que nos falta e a vivência de um relacionamento profundo, ao longo do tempo, irá preenchendo nossas lacunas com um aprendizado do outro, de forma que nos transformamos e o interesse só permanecerá se ambos evoluírem, permitindo que possamos sempre encontrar no outro, novas possibilidades de crescer e mudar. A estagnação de um faz o casal alcançar um equilíbrio pernicioso onde o desinteresse mútuo é solo fértil para a traição.
Não falo em motivações menores, nos jogos de sedução, no troca-troca ensejado pelo próprio aprendizado no mister do amor. Desejo sim entender as raízes da traição nos relacionamentos maduros e bem sucedidos. Nem me importo com as traições de fachada, em que na realidade nem relacionamento de fato há. Também não me ocupo aqui das traições fugazes, devidas ao ciúme, às vinganças, à afirmação de personalidade ou outras questões relacionadas à imaturidade. Ou ainda daqueles que, por natureza, precisam de mais de um objeto de amor.
A interrogação e o questionamento aparecem ao ter conhecimento na vida de outras pessoas ou experimentar na própria vida, um sentimento que domina, que ultrapassa a razão, que clama e que faz tão bem, porque expressa mais que tudo o estar vivo, receptivo, ainda que venha associado ao enorme desconforto de estar magoando alguém tão próximo, tão querido, tão vital para nós, de quem não desejamos nos afastar, embora quase sempre resulte em separação, culminando numa culpa que sufoca e faz surgir baixa estima, exatamente quando experimentamos a felicidade de ceder à espontaneidade.
Como lidar com a liberdade da alma, o êxtase que tanto atrai e faz retornar um estado só experimentado na infância, quando ainda não estamos peritos em nos reprimir?
Tenho a certeza de que esta traição é uma condição arquetípica e, como tal, deve ser compreendida para nos redimir da culpa e sanar a dor de nossas “vítimas” que em outra oportunidade poderão ser os “algozes”.
O entendimento de que nesta vivência, a questão não é pessoal, retira todo o peso e reatividade. Temos que examinar a situação da mesma forma como numa regressão à vivência de uma vida passada, como meros observadores, mesmo que durante o processo de encarar os fatos possamos nos permitir a revivência para esvaziar a dor emocional. Aquele que trai, o faz por motivações próprias que mesmo estando também relacionadas ao parceiro, representam a tentativa de concretização dos anseios de sua alma.
Traímos porque é bom encontrar alguém que encarne o poder de nos tirar da razão (talvez pela sedução do proibido), de nos hipnotizar a ponto de nos largarmos, cedendo aos apelos de nossa alma. Quando traímos, não estamos menosprezando ou desrespeitando quem ainda amamos. Estamos sim, valorizando e dando vez a uma parte nossa que é vida, é ânsia, não se consegue reprimir. E quem o motiva, não é que seja sempre nem tão especial assim, exceto pela capacidade de despertar em nós a vontade de ir além, de transcender, de sermos levados por algo maior que nós, que não ouve nossa mente crítica e politicamente correta, mas somente deseja expressar todo o amor que tem e que em dado momento extravasa a relação primordial, acompanhando a expectativa do novo, do desconhecido, o salto do louco,prenúncio de felicidade. No fundo é só a expressão do amor num sentido mais amplo.
Não nos julguemos pois. Apenas compreendamos nossa força que nos pode permitir fraquezas como esta, ainda que concretamente, sejam equivocadas.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Escrava Isaura

Escrava Isaura - Bernardo Guimarães

Interessante romance de Bernardo Guimarães que aborda a questão da escravatura, já retratada em A Cabana do Pai Tomás, da escritora norte-americana Harriet Stowed.
A história é tocante para os corações compassivos. Para mim, a releitura dessa obra me trouxe de volta os devaneios da adolescência quando a li em capítulos ansiosamente aguardados todas as manhãs. Bons tempos...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Classificados

Procuro, para compromisso sério, mulher equilibrada, que seja ponderada, que fale pouco e me permita guardar silêncio por longos períodos, que acorde sempre de bom humor, que saiba fazer um mínimo das tarefas do lar e cozinhe o básico para garantir que eu não seja envenenado por “fast food” e que, acima de tudo, não tenha a expectativa de que eu seja a solução de seus anseios sexuais ou o encantado portador daquele cartão de crédito que tornará possível todos os seus sonhos de consumo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Nossa História Vai Passar Outra Vez

Pois é, você chegou e nem me falou porque é que vinha. Eu o olhei e me fascinou tudo o que eu via. Tudo era lindo, familiar, seus olhos verdes, meu verde mar. Tudo, a sua postura, envergadura de todo amor que me inspirou. Você me faz acreditar no prazer de amar, no prazer da vida, de uma vida tão conhecida de outro mar... Tudo de novo: o seu caminhar, sua doçura, o seu olhar... Sinto que, para sempre, na minha estrada você há de estar. Eu quero a sua vida emaranhada na minha. Assim vou resgatar o que se perdeu em outro mar...
A nossa história eu sei que de novo vai passar...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Curando a Asma

Se você já teve uma crise de asma, vai poder entender perfeitamente o que estou falando.
Acontece geralmente no meio da madrugada. A pessoa acorda sufocada, não consegue botar o ar para dentro, já que o que está dentro não pode ser eliminado. É uma pressão no peito! Cansa, chega a doer. O coração dispara, vem o medo que aumenta a dificuldade respiratória e sobrecarrega ainda mais o coração.
E o infeliz geralmente não consegue se acalmar. Acha que vai morrer e recorre aos broncodilatadores ou corre para o pronto-socorro.
As duas possibilidades são desastrosas porque trazem um alívio, mas geram dependência.
E o que provoca a crise? Já estamos fartos de ouvir falar no assunto, de escutar as recomendações, de vibrar com as novidades da terapêutica, que na verdade, logo se mostram ineficazes. Porque todas as condutas estimulam a dependência, seja do terapeuta, dos remédios, do isolamento, da negação dos contatos. E o portador desse tipo de problema precisa, ao invés de se proteger, se isolar, se retrair, é de se abrir, confiar em si mesmo, desenvolver o seu poder pessoal, sentir-se forte e preparado para viver nesse mundo.
Mas palavras são bonitas, é até fácil compreender todo o processo, porém na hora da falta de ar...
O que buscar? O que fazer?

Acordei de madrugada: era aquela aflição, a pressão no peito, o coração disparando, expirar, só por meio da tosse. Não consigo bocejar, o diafragma não desce. Ficar deitada é impossível, apesar do sono. Não consigo relaxar. Tenho que ficar sentada, curvada para frente, usando músculos acessórios do pescoço para respirar.
Eu tinha entrado em contato com alergenos: ácaros, mofo, poeira, produtos de limpeza, aerossóis para matar mosquitos. A casa estava fechada por muito tempo e o tempo estava úmido. Eu estava ansiosa porque tinha viajado e isto para mim é causa de ansiedade.
Aí tudo se soma e surgem os sintomas. Seria fácil usar medicamentos. Mas não concordo com isto. Já que sou alérgica, procuro, por uma questão de comodidade, evitar o contato com os fatores que desencadeiam o processo.
Às vezes, é impossível e surge a crise. Sou virgem de tratamento e pretendo continuar assim. Já passei por maus pedaços, mas superei sozinha. Na minha pior crise, num dia de frio intenso em Lumiar, com chuva forte, e antes uma umidade enorme, só saí da crise rezando. Fui me acalmando; a chuva foi caindo, a umidade também e aí melhorei.
Na minha última crise, procurei me conectar com alguma coisa maior que eu. No meio da crise, lembrei de meu pai que morreu há oito meses em edema agudo de pulmão, velhinho e sem suporte hospitalar. Lembrei-me da sua agonia e da minha que estava ao seu lado e que por ter asma,conhecia um pouco o horror de me sentir afogada. Essas lembranças são dolorosas, porque me trazem culpa, já que não permiti que meu pai fosse entubado para evitar todo o sofrimento prolongado dos que morrem sem a dignidade de aguardar a sua hora em paz junto dos que amam e não sustentados por aparelhos.
Aí, instantaneamente, ao invés de ficar sofrendo por lembrar da agonia do meu pai no leito de morte e me comparar nesse momento a ele, pensei no meu pai como sua alma e não seu corpo físico. Pedi sua ajuda, sua inspiração. Então pude contemplá-lo na sua grandeza e perfeição.
Nesse momento, sentada na cama, instintivamente assumi a posição de lótus. Ao invés de permanecer curvada fui tentando alongar a coluna e abri o peito. As mãos pousaram sobre os joelhos tentando englobá-los com suavidade, com um sentido de proteção enquanto internamente eu repetia a mim mesma: lembre-se de quem você realmente é. Assim fui ficando, abrindo as asas para respirar, lembrando a mim mesma de quem eu realmente era.
Imediatamente algo aconteceu. A respiração foi ficando menos pesada, fui relaxando, conseguindo expirar e aprofundar a inspiração, o coração foi acalmando e logo eu estava me sentindo melhor. Com a expiração foi sendo drenado aquele muco que ao sair dá tanto alívio. Logo, eu já conseguia ensaiar uns bocejos. Na crise também ajuda muito abrir e fechar a boca várias vezes para estimular um bocejo que permite que o diafragma possa descer e ampliar a respiração. A gente não consegue bocejar quando está com a dificuldade respiratória.
Quando já estava bem comecei a pensar no que tinha acontecido, a analisar o que tinha feito de forma intuitiva e cheguei à conclusão de que tudo é muito simples.
A gente vive tanto quanto respira e tão bem quanto bem respira.
Então, se há dificuldade respiratória, você está caído, pra baixo, literalmente curvado. Na crise você está sob tensão, contraído. Então o tratamento é relaxar, alongar, soltar (o medo da morte gera apego). Mas o corpo físico não é capaz disso porque está sob estresse. A circulação energética está prejudicada, estagnada em algum ponto. É preciso então conectar com a alma. Esta é poderosa. Então é preciso lembrar que nós não somos apenas aquele corpo que sofre naquele momento na encarnação. É preciso despertar a memória de que somos alma, que já morremos outras vezes e que continuamos, então isso apaga o medo da morte que é o medo primordial e é o medo de quem não está respirando normalmente. Conectar com a alma é despertar a força curativa que todos temos, ainda que adormecida.
E a postura instintivamente adotada facilita o restabelecimento da circulação energética. Elevando os braços também tonificamos o meridiano do pulmão e isso eu também fiz na seqüência da melhora.

Enfim, com procedimentos simples é possível sair de uma crise, ganhando autoconfiança para no segmento tomar as medidas que visam evitar novas descompensações. O fato de não usar num primeiro momento medicamentos, nem correr em busca de ajuda externa constitui um ganho enorme no processo de lidar com esta doença.
Até mesmo com crianças, estimular determinadas posturas, fazê-las cantar e despertar nelas a confiança traz grande ajuda na assistência ao paciente.
Concluímos então que é imperativo e muito vantajoso, sob vários pontos de vista, despertar o curador que há dentro de você mesmo. É o melhor plano de saúde.