sábado, 2 de maio de 2009

Sensações (Misturas e Cores)

Misturar. Esta ideia me veio de súbito. Parte de um com parte do outro: coisa nova que surge. Comunhão. Talvez. Tão clara em mim esta sensação hoje.
Fazemos parte de um todo que depende de cada um de nós. A vibração do mundo que é formada pelas emanações de cada um de nós. A responsabilidade que há nisto, em cada ato nosso, em cada pensamento. Olhar para os outros com o amor e a consideração que devemos dispensar a nós mesmos. Gosto de misturas, do resultado das combinações em tudo. Mas mistura de partes que têm algo em comum, que podem compartilhar, que são abertas para permitir entrar no outro e serem invadidas, diferente de água e óleo.
Óleo me lembra tela que me traz tintas. Vejo a tela branca e as tintas coloridas que vão sendo colocadas no branco, que dançam levadas pelo pincel e se juntam às cores de outras e explodem em tons novos, multicoloridos. É vida nova despontando.
Os cheiros que se combinam, das peles que se tocam e se modificam pela delícia do contato, exalando perfumes que se misturam e impressionam olfatos de novas formas tão particulares, com mudanças às vezes tão sutis, mas que marcam e tocam uma profundidade tão imensa e especial.
Meus sentidos se assanham com as cores e penso que assim é com todo mundo: primeiro os olhos, mas as coisas têm cheiro e gosto e textura também. Um prato cheio de cores é recebido pela língua de forma totalmente diversa da comida monocromática. Gosto de ter todas as cores que puder no mesmo prato e ir provando cada uma delas, sentindo a temperatura da cor, o gosto da comida, me sentindo arrepiar todas pelas cores ácidas ou picantes e me deixando amansar pelas cores doces. E sentir, ao mesmo tempo, mais de uma cor na mesma parte da língua é especial. É certeza de novo sabor, nova vida que se percebe, é mais uma parte de mim que se aguça.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Traição: A Busca Equivocada pela Transcendência no Amor

O que nos levaria, num nível mais profundo, a trair, mesmo nos relacionamentos em que há um amor inquestionável?
Porque mesmo em casamentos, com e sem aspas, em que há harmonia, complementariedade, paixão, amizade, companheirismo e outros ingredientes indicadores de profundidade em relacionamento amoroso, ainda assim, o fantasma da traição insiste em rondar?
Ainda que a traição não se concretize, é inegável que alguma vez já se fez presente nas fantasias, mesmo daquele parceiro mais convicto, que tem a certeza de ter encontrado a sua alma gêmea e estar feliz e realizado com ela.
A Astrologia nos explica que buscamos no outro aquilo que nos falta e a vivência de um relacionamento profundo, ao longo do tempo, irá preenchendo nossas lacunas com um aprendizado do outro, de forma que nos transformamos e o interesse só permanecerá se ambos evoluírem, permitindo que possamos sempre encontrar no outro, novas possibilidades de crescer e mudar. A estagnação de um faz o casal alcançar um equilíbrio pernicioso onde o desinteresse mútuo é solo fértil para a traição.
Não falo em motivações menores, nos jogos de sedução, no troca-troca ensejado pelo próprio aprendizado no mister do amor. Desejo sim entender as raízes da traição nos relacionamentos maduros e bem sucedidos. Nem me importo com as traições de fachada, em que na realidade nem relacionamento de fato há. Também não me ocupo aqui das traições fugazes, devidas ao ciúme, às vinganças, à afirmação de personalidade ou outras questões relacionadas à imaturidade. Ou ainda daqueles que, por natureza, precisam de mais de um objeto de amor.
A interrogação e o questionamento aparecem ao ter conhecimento na vida de outras pessoas ou experimentar na própria vida, um sentimento que domina, que ultrapassa a razão, que clama e que faz tão bem, porque expressa mais que tudo o estar vivo, receptivo, ainda que venha associado ao enorme desconforto de estar magoando alguém tão próximo, tão querido, tão vital para nós, de quem não desejamos nos afastar, embora quase sempre resulte em separação, culminando numa culpa que sufoca e faz surgir baixa estima, exatamente quando experimentamos a felicidade de ceder à espontaneidade.
Como lidar com a liberdade da alma, o êxtase que tanto atrai e faz retornar um estado só experimentado na infância, quando ainda não estamos peritos em nos reprimir?
Tenho a certeza de que esta traição é uma condição arquetípica e, como tal, deve ser compreendida para nos redimir da culpa e sanar a dor de nossas “vítimas” que em outra oportunidade poderão ser os “algozes”.
O entendimento de que nesta vivência, a questão não é pessoal, retira todo o peso e reatividade. Temos que examinar a situação da mesma forma como numa regressão à vivência de uma vida passada, como meros observadores, mesmo que durante o processo de encarar os fatos possamos nos permitir a revivência para esvaziar a dor emocional. Aquele que trai, o faz por motivações próprias que mesmo estando também relacionadas ao parceiro, representam a tentativa de concretização dos anseios de sua alma.
Traímos porque é bom encontrar alguém que encarne o poder de nos tirar da razão (talvez pela sedução do proibido), de nos hipnotizar a ponto de nos largarmos, cedendo aos apelos de nossa alma. Quando traímos, não estamos menosprezando ou desrespeitando quem ainda amamos. Estamos sim, valorizando e dando vez a uma parte nossa que é vida, é ânsia, não se consegue reprimir. E quem o motiva, não é que seja sempre nem tão especial assim, exceto pela capacidade de despertar em nós a vontade de ir além, de transcender, de sermos levados por algo maior que nós, que não ouve nossa mente crítica e politicamente correta, mas somente deseja expressar todo o amor que tem e que em dado momento extravasa a relação primordial, acompanhando a expectativa do novo, do desconhecido, o salto do louco,prenúncio de felicidade. No fundo é só a expressão do amor num sentido mais amplo.
Não nos julguemos pois. Apenas compreendamos nossa força que nos pode permitir fraquezas como esta, ainda que concretamente, sejam equivocadas.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Escrava Isaura

Escrava Isaura - Bernardo Guimarães

Interessante romance de Bernardo Guimarães que aborda a questão da escravatura, já retratada em A Cabana do Pai Tomás, da escritora norte-americana Harriet Stowed.
A história é tocante para os corações compassivos. Para mim, a releitura dessa obra me trouxe de volta os devaneios da adolescência quando a li em capítulos ansiosamente aguardados todas as manhãs. Bons tempos...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Classificados

Procuro, para compromisso sério, mulher equilibrada, que seja ponderada, que fale pouco e me permita guardar silêncio por longos períodos, que acorde sempre de bom humor, que saiba fazer um mínimo das tarefas do lar e cozinhe o básico para garantir que eu não seja envenenado por “fast food” e que, acima de tudo, não tenha a expectativa de que eu seja a solução de seus anseios sexuais ou o encantado portador daquele cartão de crédito que tornará possível todos os seus sonhos de consumo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Nossa História Vai Passar Outra Vez

Pois é, você chegou e nem me falou porque é que vinha. Eu o olhei e me fascinou tudo o que eu via. Tudo era lindo, familiar, seus olhos verdes, meu verde mar. Tudo, a sua postura, envergadura de todo amor que me inspirou. Você me faz acreditar no prazer de amar, no prazer da vida, de uma vida tão conhecida de outro mar... Tudo de novo: o seu caminhar, sua doçura, o seu olhar... Sinto que, para sempre, na minha estrada você há de estar. Eu quero a sua vida emaranhada na minha. Assim vou resgatar o que se perdeu em outro mar...
A nossa história eu sei que de novo vai passar...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Curando a Asma

Se você já teve uma crise de asma, vai poder entender perfeitamente o que estou falando.
Acontece geralmente no meio da madrugada. A pessoa acorda sufocada, não consegue botar o ar para dentro, já que o que está dentro não pode ser eliminado. É uma pressão no peito! Cansa, chega a doer. O coração dispara, vem o medo que aumenta a dificuldade respiratória e sobrecarrega ainda mais o coração.
E o infeliz geralmente não consegue se acalmar. Acha que vai morrer e recorre aos broncodilatadores ou corre para o pronto-socorro.
As duas possibilidades são desastrosas porque trazem um alívio, mas geram dependência.
E o que provoca a crise? Já estamos fartos de ouvir falar no assunto, de escutar as recomendações, de vibrar com as novidades da terapêutica, que na verdade, logo se mostram ineficazes. Porque todas as condutas estimulam a dependência, seja do terapeuta, dos remédios, do isolamento, da negação dos contatos. E o portador desse tipo de problema precisa, ao invés de se proteger, se isolar, se retrair, é de se abrir, confiar em si mesmo, desenvolver o seu poder pessoal, sentir-se forte e preparado para viver nesse mundo.
Mas palavras são bonitas, é até fácil compreender todo o processo, porém na hora da falta de ar...
O que buscar? O que fazer?

Acordei de madrugada: era aquela aflição, a pressão no peito, o coração disparando, expirar, só por meio da tosse. Não consigo bocejar, o diafragma não desce. Ficar deitada é impossível, apesar do sono. Não consigo relaxar. Tenho que ficar sentada, curvada para frente, usando músculos acessórios do pescoço para respirar.
Eu tinha entrado em contato com alergenos: ácaros, mofo, poeira, produtos de limpeza, aerossóis para matar mosquitos. A casa estava fechada por muito tempo e o tempo estava úmido. Eu estava ansiosa porque tinha viajado e isto para mim é causa de ansiedade.
Aí tudo se soma e surgem os sintomas. Seria fácil usar medicamentos. Mas não concordo com isto. Já que sou alérgica, procuro, por uma questão de comodidade, evitar o contato com os fatores que desencadeiam o processo.
Às vezes, é impossível e surge a crise. Sou virgem de tratamento e pretendo continuar assim. Já passei por maus pedaços, mas superei sozinha. Na minha pior crise, num dia de frio intenso em Lumiar, com chuva forte, e antes uma umidade enorme, só saí da crise rezando. Fui me acalmando; a chuva foi caindo, a umidade também e aí melhorei.
Na minha última crise, procurei me conectar com alguma coisa maior que eu. No meio da crise, lembrei de meu pai que morreu há oito meses em edema agudo de pulmão, velhinho e sem suporte hospitalar. Lembrei-me da sua agonia e da minha que estava ao seu lado e que por ter asma,conhecia um pouco o horror de me sentir afogada. Essas lembranças são dolorosas, porque me trazem culpa, já que não permiti que meu pai fosse entubado para evitar todo o sofrimento prolongado dos que morrem sem a dignidade de aguardar a sua hora em paz junto dos que amam e não sustentados por aparelhos.
Aí, instantaneamente, ao invés de ficar sofrendo por lembrar da agonia do meu pai no leito de morte e me comparar nesse momento a ele, pensei no meu pai como sua alma e não seu corpo físico. Pedi sua ajuda, sua inspiração. Então pude contemplá-lo na sua grandeza e perfeição.
Nesse momento, sentada na cama, instintivamente assumi a posição de lótus. Ao invés de permanecer curvada fui tentando alongar a coluna e abri o peito. As mãos pousaram sobre os joelhos tentando englobá-los com suavidade, com um sentido de proteção enquanto internamente eu repetia a mim mesma: lembre-se de quem você realmente é. Assim fui ficando, abrindo as asas para respirar, lembrando a mim mesma de quem eu realmente era.
Imediatamente algo aconteceu. A respiração foi ficando menos pesada, fui relaxando, conseguindo expirar e aprofundar a inspiração, o coração foi acalmando e logo eu estava me sentindo melhor. Com a expiração foi sendo drenado aquele muco que ao sair dá tanto alívio. Logo, eu já conseguia ensaiar uns bocejos. Na crise também ajuda muito abrir e fechar a boca várias vezes para estimular um bocejo que permite que o diafragma possa descer e ampliar a respiração. A gente não consegue bocejar quando está com a dificuldade respiratória.
Quando já estava bem comecei a pensar no que tinha acontecido, a analisar o que tinha feito de forma intuitiva e cheguei à conclusão de que tudo é muito simples.
A gente vive tanto quanto respira e tão bem quanto bem respira.
Então, se há dificuldade respiratória, você está caído, pra baixo, literalmente curvado. Na crise você está sob tensão, contraído. Então o tratamento é relaxar, alongar, soltar (o medo da morte gera apego). Mas o corpo físico não é capaz disso porque está sob estresse. A circulação energética está prejudicada, estagnada em algum ponto. É preciso então conectar com a alma. Esta é poderosa. Então é preciso lembrar que nós não somos apenas aquele corpo que sofre naquele momento na encarnação. É preciso despertar a memória de que somos alma, que já morremos outras vezes e que continuamos, então isso apaga o medo da morte que é o medo primordial e é o medo de quem não está respirando normalmente. Conectar com a alma é despertar a força curativa que todos temos, ainda que adormecida.
E a postura instintivamente adotada facilita o restabelecimento da circulação energética. Elevando os braços também tonificamos o meridiano do pulmão e isso eu também fiz na seqüência da melhora.

Enfim, com procedimentos simples é possível sair de uma crise, ganhando autoconfiança para no segmento tomar as medidas que visam evitar novas descompensações. O fato de não usar num primeiro momento medicamentos, nem correr em busca de ajuda externa constitui um ganho enorme no processo de lidar com esta doença.
Até mesmo com crianças, estimular determinadas posturas, fazê-las cantar e despertar nelas a confiança traz grande ajuda na assistência ao paciente.
Concluímos então que é imperativo e muito vantajoso, sob vários pontos de vista, despertar o curador que há dentro de você mesmo. É o melhor plano de saúde.

Indo Embora

Há momentos que são tristes. ‘Eu me sinto presa’. São tantas coisas densas, tantos problemas pequenos que não me permitem voar...
Quero alçar um vôo leve e levar comigo aquele que almeja a liberdade.

Há momentos que são cheios de alegria. Estou solta e leve, para fugir de tantas coisas que me impedem, que me mantém numa caminhada tão medíocre...
Quero correr, pular, sumir deste mundo grotesco, alma livre que sou. Sou presa somente pela emoção, pelos contatos de amor.

Sinto-me amarrada, atolada, cansada e sem ânimo de me libertar. Busco aquilo que sei que posso e não consigo. Não sei andar nesse caminho de pedras quando sei que vim de um lugar onde caminhava sobre as nuvens.
Quero voltar, quero me reencontrar. Vou-me embora. Vou voar. Vou ser. Longe daqui...

Meu Irmão Mais Feliz:

Ele está sempre de bem com a vida. Sua principal característica é a confiança. Espera sempre o melhor de cada situação vivida. É receptivo aos acontecimentos, às pessoas e às mudanças. Sempre risonho, é difícil conseguir tirá-lo do sério. Mas quando se aborrece eleva a voz, faz cara feia que chega a assustar. Mas passa rápido e logo recupera o ar jovial, o sorriso no rosto, as palavras suaves! É tão otimista, que quase sempre exagera nas expectativas de bons negócios e acaba tendo prejuízos. Mas não se importa, está sempre recomeçando. Sabe perder e recomeçar sempre com o mesmo entusiasmo.
Tem senso de estética apurado e adora trabalhar com as mãos, produzidno peças caprichadas, em madeira e metal. É autodidata, com um largo campo de interesses, sobretudo voltado para eletrônica e informática, nos quais sobressai e realiza coisas fantásticas. Mas seu forte é a diversidade. Já trabalhou em inúmeros projetos, desde criação de camarões e escargots até construção de aeromodelos. Na informática está sempre acompanhando as novidades. Já trabalhou com fotografia, montando um estúdio de alto nível e depois deixou seu sofisticado equipamento, sendo usado somente como hobby. Na verdade, ele é extremamente criativo, desapegado, vinculado exclusivamente ao momento presente e apaixonado por tudo que faz, sem se importar com questões financeiras, previsões e burocracias.
Aprecia, sobretudo, os prazeres da mesa, é excelente cozinheiro do trivial e adora experimentar novos pratos.
Seus amigos o adoram simplesmente porque é bom desfrutar de sua companhia.
Não tem orgulho, é o irmão mais velho, mas nunca se importou de solicitar auxílio sempre que precisou.
Constituiu numerosa família, criando seis filhos que tiveram sempre abundância de carinho, liberdade, incentivo e felicidade. Não aceitou comprometer a sua felicidade em troca de segurança material. Tenho certeza de que sairá da vida deixando para os filhos a riqueza representada pela alegria de viver cada dia como se fosse o último de sua existência.

domingo, 26 de abril de 2009

Todos os Mares

Mar de azuis
De algas, de recifes de corais.
Mar das redes fartas
De coloridos peixes
Dos pescadores com seus barcos.

Mar bravio
De ondas colossais.
Mar dos desbravadores,
Dos piratas e seus tesouros,
Das garrafas com segredos.

Mar de sonhos,
Mar de lágrimas
Daqueles que esperam na praia.

Mar de ilusão,
Mar das sereias fantásticas
E dos marinheiros enfeitiçados por seu canto.

Mar das crianças travessas, dos tatuís,
Dos surfistas pegando ondas, suas pranchas
E das mulheres com seus nus.
Dos caixotes e inevitáveis tombos,
Com seios à mostra e rosadas bundas.

Mar de audácia,
Mar de desconsolo e dor,
Mar de grandiosidade e tragédias.

Mares onde nos perdemos para nunca mais,
Dos afogados nas águas ou nas próprias tristezas.
Mares que nos levam para longe...
Para terras estrangeiras ou para o estranho em si,
Para buscas insondáveis, perdição ou reconhecimento.

Mares de náufragos...
Dos esquecidos
De si mesmos ou de todos.

sábado, 25 de abril de 2009

Escrever

Sempre se escreve sobre si mesmo. Talvez seja apenas isso: uma explosão repentina no ser que precisa ser aliviada. Eu escrevo estilhaços de pensamentos que, de repente, caem na minha cabeça. Tudo é fragmentado como a própria vida. A questão de cada um é juntar os pedaços, descobrindo o relacionamento que há entre os fatos, exercendo dessa forma a compreensão.
Quando escrevo tenho medo, porque me sinto despida, me revelo para os outros, sinto-me, por vezes, em carne viva, esfolada de minha proteção. Talvez seja por isso que minhas mãos ficam vermelhas, coçam tanto e esfolam. Eu quero me revelar. Eu busco me mostrar para mim mesma.
Só sei escrever assim: sem enredo, sem preparação, apenas dando vida ao que vai jorrando, brotando de mim.
Há tempos comprei uma máquina elétrica para escrever meus textos. Mas, doce ilusão, ainda não consigo, até hoje, acompanhar, com o teclado, a rapidez das idéias. Gosto mesmo é de escrever com a caneta deslizando pelo papel. Acho tão bonito esse movimento! É fluxo, é um escorrer de idéias, de sensações, de impressões...
Muitas vezes, quando espio pela janela do ônibus, surgem mil reflexões, todas elas geradas pelos cheiros que eu capto da vida. Enquanto os ônibus correm, os odores vão chegando, me impressionam e logo mudam para outros que trazem novas cenas que se desenrolam na minha mente. É incrível a velocidade em que o mundo vai acontecendo! Quanta coisa existe para percebermos com os sentidos! As imagens que entram pelos nossos olhos, os perfumes que se sucedem marcando acontecimentos, os ruídos que nos transportam para mundos diferentes. Como a realidade é rica de coisas e como elas nos fazem voar! Como cada um pode ser tão rico quanto quiser, quanto for capaz de enriquecer suas percepções! E o toque? A sensualidade é mansa e doce. Pensar, sentir, voar. Voar para mais alto, acima de todas as coisas. Integrar realidade e fantasia. Soltar as asas e ensaiar voos cada vez mais plenos de sentir. Quanta riqueza em cada um de nós! Quanta beleza presente, pronta para ser captada por todos que se sentem aptos a viver de fato! O imaginário é, a um só tempo, nosso servo e senhor.
Sensibilidade, estar à flor da pele, ansiar por doçuras, estar acima de todas as coisas, pensar somente com o coração. Tudo faz sentido. Tudo, de repente, fica belo.
Hoje pensei num trem. Tantas analogias passaram pela minha cabeça! Um trem é tão presente, é um impulso, sem freio, é continuidade, é perseverança, é destino. É um desenvolver aos poucos, é um balançar, é um barulho contínuo. É imponente, se visto de frente. Pode ser ameaçador. É dor pungente, de saudade, se visto de costas. É belo e convidativo ao olhar, se olhado de lado. Somos nós nas suas janelas. E aí tudo passa pela gente. O trem corre ou são as coisas, o mundo que corre? Somos nós que passamos pelo mundo ou será o mundo que desfila aos nossos olhos? Fico me imaginando dentro de um deles. Não me importo se há requinte no seu interior. Eu gosto de requinte, de cuidados, mas prefiro a simplicidade. O que me atrai de fato é percorrer longas distâncias olhando pela janela. É poder ver o mundo passar por mim, é essa alma de voyeur, é a experiência da impermanência de todas as coisas. Eu vibro quando consigo captar não só imagens como também cheiros que me transportam para outras realidades. Sei que os odores que impregnam meu nariz sensibilizam áreas nervosas que são então integradas no cérebro e me despertam emoções. Adoro a fluidez das informações chegando. São tantas vidas a passar pelos meus olhos! Vidas que me fazem deflagrar outros sonhos. Vibro com a realidade que vejo e com os sonhos que cada fato real me desperta. É uma riqueza imensa que brota de dentro de mim. É vida sobre vida.
Para mim, isto é estar aberta. É sempre que o mundo me impressiona. É quando eu me conecto com o exterior. É quando o que vai por dentro de mim consegue romper as barreiras e extravasar. Adoro esta palavra: extravasar. É ir além, romper limites. É ir subindo devagar, transbordando, espalhando-se.
Música também me atinge em cheio. Ouço Je t’aime e fico trêmula. Porque hoje estou à flor da pele. E estar assim é estar viva, mesmo que isso aconteça somente às vezes. Fora isso, me sinto uma máquina de realizar. Realizo, faço, cumpro, venço, produzo. E é tão bom ser só sentidos, estar à janela do trem e ver o mundo passar. E sentir, sentir, deixar-se levar. Ser somente. Nada a fazer. Não fazer. Soltar-se. Soltar as amarras e ir à deriva, mar afora. Trem solto dos trilhos. Pássaro sem asas.