sábado, 14 de março de 2009

Lucidez

Ah, seu moço! Quer saber? Eu tenho vivido de lendas... Porque isso é bom, aquilo é ruim; pode isso, não pode aquilo; tenho que isto, tenho que aquilo outro. Tudo já pronto, sem possibilidades. Agora chega! Vou sair desta camisa de impedimentos e regras pra me encontrar: pela experiência.
Sei lá como eu sou! E posso saber, com tantas coisas que foram coladas em mim sem me perguntarem antes se tinham algo a ver comigo? Pois é: quem não se toca um dia para esta armadilha permanece amarrado, a existência inteira de pernas pro ar, balançando pra lá e pra cá ao sabor dos movimentos da Vida. Seria bom aproveitar: que de cabeça pra baixo o sangue circula melhor e pode iluminar a mente para a descoberta fatal: eu sou único, sem igual.
É, moço, cansei de balançar. Quero ser firme, ter direção certa: a dos meus próprios passos. E isto só posso saber andando. E, de preferência, sem outra companhia que não eu mesmo. Para poder me concentrar e perceber cada pedacinho do caminho: olhando as maravilhas, atento aos acidentes do terreno, aproveitando e seguindo os atalhos, apanhando chuva, me deixando levar pelos ventos, iluminado pela claridade do sol forte, andando a esmo nos momentos de neblina cerrada norteado apenas pela intuição, molhando meus pés descalços nas águas frias ou quentes, curando as feridas destes mesmos pés depois de finalmente fazer as escolhas certas, pegando a estrada que me levará para onde meu coração apontar.
Vou me descobrir. Ou, quem sabe, me construir outra vez, depois de me pôr abaixo diante do meu primeiro olhar lúcido desta encarnação.

Descompasso

Morro um pouco a cada dia,
Não abro mais a porta,
Não recebo ninguém, ninguém me recebe,
Não brigo mais, não participo,
Não caminho,
Apenas permaneço triste, desenergizado,
Em total estagnação.
Quero ajuda? De quem?
Não vislumbro o futuro...
Não quero mais lutar, nem esperar...
Há uma névoa que encobre meus olhos,
Sou quase um morto.

Não enxergo o quanto me engano,
Se tento ensaiar passos tímidos
Para onde não desejo de fato ir.
E nada acontece...
Não consigo. Tento?
Sou um perdedor.
Todos já sabem. Menos eu.
Não vou conseguir mesmo o que afirmo querer. Mentira.
Quero ou querem para minha vida?
Perdi para mim mesmo.
Sigo as escolhas que outros fizeram por mim e para mim.
Deixei de ser eu. Apenas hoje arco com a responsabilidade.
Nem sei agora quem sou.

Tenho lapsos, vivo o descompasso...

Mãe Destruidora

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Mãe Destruidora

A despeito do teu valor para os outros
não me serves como mãe
nem te quero perto,
posto que só me fazes mal
desde sempre,
antes mesmo de respirar.
Teus olhos não olham em minha direção
a não ser para ferir;
não encontro braços que me acolham;
muito menos mãos que acariciem;
teu colo magro não aconchega,
nem mesmo existe;
no peito não há seios que possam nutrir;
no local do coração só vejo um grande buraco.
Sei que me pariste,
porém teu ventre foi, é e será sempre oco,
como é tua existência
de mãe destruidora.


Poesia inspirada na escultura
Mãe Destruidora.

Epitáfio

Não chorem a minha ausência.
Só aceito lágrimas de alegria
Ao recordarem os bons momentos
Que vivemos juntos.

Epitáfio

O amor é o único elo rosado e indestrutível capaz de nos manter ligados a quem nos foi importante durante a vida.

Epitáfio

Não percam tempo lamentando o que não podem mais viver comigo.
Antes, se inspirem nas lembranças deixadas de tudo que lhes dediquei por amor durante a vida.

Epitáfio

Você realmente me ama?
E pensa que estou aqui?
Está completamente enganado,
a partir de agora só me encontra
sempre junto de você, dentro do seu coração.

Epitáfio

Você errou comigo
e agora pensa em pedir perdão?
Deixa disso, caro amigo,
não tô mais nessa não.
Toca pra frente, faz diferente
com algum outro a partir de então.

Epitáfio

Se a minha morte ajudou alguém
a repensar sua vida,
terá valido a pena
sair de cena tão cedo.